Um pontapé no... parvo do povinho

Há coisas extraordinárias, pois há! Não são raras as vezes em que me sinto como uma ilha, rodeada de energúmenos por todos os lados. Mas acredito piamente que não sou a única, que muitos de nós terão essa sensação várias vezes na vida, se não até várias vezes por dia.

Primeiro-Ministro Passos Coelho

Muitas vezes quando ouço alguém falar, ou leio sobre alguma coisa que alguém disse, penso que bem aplicado seria um bom pontapé na boca. Aquilo a que vulgarmente se chama uma “biqueirada”.

Nunca compreendi se algumas pessoas se consideram verdadeiramente iluminadas, se pensam que todos à sua volta são estúpidos que nem portas ou uma inquietante conjugação de ambas.

Fui pôr o Euromilhões, naquela vã esperança de que um dia me possa tocar a mim e na convicção acertada de que se não o puser não sairá de certeza, e as letras das capas dos jornais em exposição naturalmente captaram a minha atenção. De repente estava a ler o que Passos Coelho disse sobre não ter pagado as suas obrigações fiscais. Tudo escrito entre aspas, num bom discurso directo. Pisquei os olhos e caiu-me o queixo.

Diz o nosso Primeiro-Ministro (sim, não é o Pedro ali da esquina!) que não pagou, umas vezes por distracção, outras por não ter dinheiro. Assim mesmo, ipsis verbis. Verborreicamente. E fiquei a pensar se seria uma simples falha de neurónios ou um gozo descarado com o povinho...

“Atão” o “sô” Primeiro-Ministro” não acha um bocado sinistro o que disse para quem quis ouvir...? E pior! Para quem quis escrever. É que Deus livre aquele que puser o pé em ramo verde com as suas atentas Finanças, tenha ou não tenha dinheiro para pagar. Achará por um acaso este senhor que é o único que pode não pagar ao Fisco por não ter dinheiro? É que, ó Sr. Primeiro-Ministro, há por aí uns milhares de portugueses que também não têm dinheiro para pagar ao Estado e, como bem se sabe, o Estado até alimentos de caridade para famílias carenciadas se apressa a penhorar!

Este é um grande pontapé... e não é na gramática. Gramaticalmente está correcto e para muito povinho “não ter dinheiro” já é por si só um verbo que se conjuga por inteiro e no Presente.

Isto é, isso sim, um grande descaramento. Portanto, a partir de agora será que temos a legitimidade de chegar às Finanças e dizer “desculpe lá, mas não tenho dinheiro, temos pena, não pago”...? 

Ou será que se trata de uma casta diferente de portugueses... Tipo “Animal Farm”?

AUTOR: Filomena Marta

Publicado em: 
6 Março, 2015
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