O triunfo dos… estultos

Que o jornalismo está pela “hora da morte” em Portugal começa a não ser novidade para muitos. Pelo menos para aqueles que não vivem de “casas dos segredos” e Companhias Limitadas. Aliás, bastante limitadas no que toca a inteligência, sem com isto querer parecer sectária ou elitista. Bem… confesso que talvez um pouco elitista, pois que sou um “nadinha” alérgica a estultos. Aliás, é meu hábito assumir que prefiro a porcaria à estupidez, porque a porcaria limpa-se.

O triunfo dos... estultos

Para quem não sabe o que significa a pouco comum palavra “estulto”, é apenas uma forma elegante de dizer “estúpido” e tem como outros sinónimos “néscio; imbecil; inepto; insensato; e mesmo asno”, sem desprimor para os dóceis jumentos.

Infelizmente há duas tristes realidades no nosso panorama jornalístico. Por um lado, Meios de Comunicação Social que não merecem tal nome (embora honra lhes seja feita pelo facto de irem abordando temas que são importantes abordar, como os casos de polícia de “faca na liga”, mas já agora pede-se que sejam pelo menos bem feitos); por outro, um pulular de gente a quem é dada voz como autores de “opinião” e a quem não deveria ser permitido emitir qualquer opinião que não fosse fora da tasca do seu bairro, entre iguais.

Vem este “correr de pena” animado por um curto “artigo de opinião” que começa logo bem com um título que prova que o autor de cultura sabe pouco, de adequação sabe menos, e seguido de uma verborreia pouco animadora para quem possui apenas dois neurónios… e estando um deles de férias. Este brilhante título (à verborreia já lá vamos) é nada menos do que o título de uma obra literária absolutamente magnífica do eterno George Orwell e um manual sociopolítico de leitura obrigatória, embora não seja leitura fácil para os tais estultos, e daí ser normal não compreenderem patavina do que trata tal magnífica literatura. De seu título original “Animal Farm” foi-lhe dado em português o nome de “O Triunfo dos Porcos”, porque “todos os porcos são iguais, mas uns são mais iguais do que outros”. 

Pensando bem, e nesta lógica de (des)igualdade, o título até estará bem adaptado ao autor.

Não gosto muito de “malhar” em autores e acho que (quase) todos têm direito à sua opinião… embora muitas delas devam realmente ser reservadas para a tasca lá do bairro. Daí a emitirem de forma escrita, preto no branco, em letra impressa e num Meio de Comunicação (seja ele qual for, mesmo que considerado “pasquim”) a sua verborreia, isso já é outra história. É a história do “uns são mais iguais do que outros”.

Não devemos falar ou escrever irritados, mas, pronto, a estupidez irrita-me. A culpa final, afinal, não é de quem emite a opinião, é de quem a publica. O director, editor e outros responsáveis editoriais, por muito mau que seja o jornal/revista, deveriam ter o bom senso de analisar se determinado texto, de opinião ou não, tem lógica fundamentada para ser factualmente imortalizado em letra impressa. Nada tem a ver com censura, mas com a protecção dos que lêem e que têm de tropeçar em ideias néscias e opiniões boçais. Aliás, é dever de todos nós praticar de forma inteligente a autocensura. Não é o “politicamente correcto”, é a capacidade de analisar se o que dizemos tem “pés e cabeça”.

Só sou partidária de duas coisas: da sensibilidade e do bom senso, perenemente associados à inteligência. E existe uma total ausência de sensibilidade e bom senso ao dar como modelo de raciocínio uma frase que reza “prometeu, por exemplo, um sistema de partilha de horas diárias entre vitelo e progenitora. Nesta questão fracturante*, o PAN recusa que o vitelo seja retirado 48 horas após o parto porque isso é "bastante negativo no desenvolvimento (…) dos animais".

Por incrível que pareça, isto é factualmente uma crítica desconstrutiva a um dos pontos que o PAN defendia no seu programa eleitoral (sendo eu por princípio apartidária). Que a defesa dos direitos dos animais faça “espécie” a muita gente, e haja até quem proclame que os animais não têm direitos porque não têm deveres (há até quem diga que “não pagam impostos”, o que deixa as crianças humanas em muito má qualificação para a existência de Direitos das Crianças, já que não têm deveres nem pagam impostos… e sem falar sequer nos que dizem que “a vida do ser humano mais asqueroso vale mais do que a do animal mais amado”), vá lá, até dou de barato. Eles existem e “andem aí”… sim leu bem: “andem aí”, porque estas pessoas não “andam por aí” apenas “andem”. Mas que seja difícil entender (e falo apenas neste ponto muito específico e escolhido como exemplo pelo “brilhante” autor) que é uma brutal violência separar uma cria recém-nascida da sua mãe… bem… talvez mude de ideias no dia em que lhe retirarem dos braços um filho à nascença. Isto, claro, assumindo condoidamente que até os estultos conseguem procriar.

* corrigida a ortografia, pois este site não segue o AO

AUTOR: Filomena Marta

Publicado em: 
9 Outubro, 2015
Categoria: 
1212 leituras

Comentários

Retrato de Carlos Ricardo

Como eu gostava de me expressar como tu... !!!
Só consigo dizer: EXCEPCIONAL ARTIGO ("desabafo"), Directo, jocoso, contundente mas que dificilmente será compreendido pela "inteligência" do visado !!
Parabéns, Filó !! Mas continuo á espera do café... !!