Sophia no Panteão

Cresci com Sophia de Mello Breyner Andresen. Sim, não era uma criança “normal”, cresci com tantos poetas quantos a minha tenra juventude conseguia encontrar.

Sofia de Mello Breyner no Panteão

Eu própria ensaiei poema após poema, que um dia tive a veleidade de compilar e mostrar (porque receosa da minha enorme falta de valor), primeiro a um homem magnífico que considerou o esboço de obra um “diamante em bruto”, chama-se José Jorge Letria, e depois a uma mulher que sem pejo me disse para desistir da escrita, porque escrevia como uma mulher-a-dias, e chamava-se esta “doce” senhora, também muito premiada, Rosa Lobato Faria. Já faleceu. Ponto final.

Pelo meu lado, e nem sei porquê, preferi acreditar nas palavras desta do que na opinião daquele. Talvez por ter gostado tanto dele, por o ter achado um homem bom, talvez por ter achado que apenas não me queria magoar. E guardei, refundida, a minha hipótese de obra poética. Não voltei a escrever um só poema.

Cresci com Sophia de Mello Breyner Andresen. Bebia os seus poemas como se fossem a minha voz, chorei com muitos. Relia até à exaustão Sophia. E voltava a ler, uma e outra vez, até quase decorar os seus poemas. Engraçado como nunca li “A menina do mar”… mas li “Terror de te Amar” (“num sítio tão frágil como o mundo”…).

Hoje, Sophia vai habitar o lugar que deveria ter sido sempre seu, por direito, por valor e por talento: o Panteão Nacional.

“Aqui, deposta enfim a minha imagem/ Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem,/ No interior das coisas canto nua./ Aqui livre sou eu – eco da lua/ E dos jardins, os gestos recebidos/ E o tumulto dos gestos pressentidos,/ Aqui sou eu em tudo quanto amei./ Não por aquilo que só atravessei,/ Não pelo meu rumor que só perdi,/ Não pelos incertos actos que vivi,/ Mas por tudo de quanto ressoei/ E em cujo amor de amor me eternizei” – Sophia de Mello Breyner Andresen*

Hoje, Sophia vai ter uma homenagem condizente com o seu brilho de poeta. Pena de não poder estar lá…

Hoje, Sophia vai poder finalmente descansar absolutamente em paz, no leito que merece.

Agora, falta-me Florbela Espanca…

* Que me perdoem os herdeiros os Direitos de Autor!

AUTOR: Filomena Marta

Publicado em: 
2 Julho, 2014
Categoria: 
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