Skipper, a história verídica de um cão herói, por J. B. Saltão

Os acontecimentos de mar tem levado muitos escritores a criarem à sua volta os chamados mistérios insondáveis, conduzindo à publicação de livros, de inúmeros artigos avulso, filmes e séries televisivas em que são apresentadas as mais diversas teorias, muitas vezes surrealistas, acrescentando sempre um ponto, mas que se vendem bem. Basta recordar o sucesso das histórias à volta do Triângulo das Bermudas, do “Mary Celeste”, do “Titanic”, por exemplo, que venderam milhões de livros, traduzidos em diversas línguas, e que continuam a aparecer em programas televisivos ou filmes, dando azo a sucessivas novas versões.

Skipper, a história verídica de um cão herói

De todas as narrativas sobre acontecimentos no mar que tenho lido, há um caso, pelo desenvolvimento da acção e o romantismo que encerra, que não resisto a narrar. Nesta história, pouco sabida e pouco contada, há gente corajosa e um magnífico cão herói, mas é preciso regressar ao início do século XX, quando a Terra Nova era um lugar inóspito. Devido à sua morfologia e orografia, as estradas eram escassas e, embora possuindo caminho-de-ferro que ligava St.John’s a Port-aux-Basques, na ponta sudoeste da ilha, o transporte de pessoas e mercadorias entre portos era feito por via marítima.

Decorria o ano de 1919 e no dia 10 de Dezembro, uma quarta-feira, zarpou de Cow Head, na costa oeste da Terra Nova, com destino a St. Jhons, o S.S. “Ethie” da Reid Shipping Company (a primeira companhia a usar navios a vapor para transporte de passageiros e mercadorias ao redor da ilha da Terra Nova). Fora construído em Glasgow no ano de 1900 e registado em St. John’s com o nº.113009, com 440 toneladas de TAB, casco de aço e máquinas a vapor. Era um dos oito navios que faziam parte da chamada “Alphabetic Fleet”, por todos os navios terem nomes começados pelas letras do alfabeto. Tinha ao comando o Cap.Edward English Jr. e contava com 92 pessoas embarcadas, incluindo a tripulação.

Ethie

Passadas algumas horas de navegação o S.S. “Ethie” deparou-se com um forte temporal, de força 12 na escala Beaufort, com tempestade de neve, que o obrigou a permanecer de capa durante 14 horas.

O Cap. E. English Jr. era filho do Cap. Edward English, capitão do Porto de St. Jhon’s, muito conceituado nos meios marítimos não só por ser no seu tempo um excelente comandante, com provas dadas, mas por, já em terra, ter demonstrado ser um funcionário de alto gabarito, conselheiro e representante do Governo da Terra Nova para os assuntos relacionados com o mar.

Diz-se que quem sai aos seus não degenera e Edward Júnior herdara as qualidades do pai. Perante um temporal cada vez mais severo, sem saber quantas mais horas podia aguentar aquela intempérie, com o carvão a esvair-se do paiol por exigência de alimentação das caldeiras, a que era pedido sempre mais vapor, e porque o navio cada vez mais abatia em direcção à costa, impotente para vencer a fúria do temporal, ficando na iminência de se desfazer contra as pedras, resolveu o comandante, em boa hora, abicar à praia num local onde pudesse evitar um mal maior.

Se bem o pensou, melhor o executou. Com coragem, profissionalismo e a decisão certa, adequada a tal situação, evitou que o S.S. “Ethie” se espatifasse contra as pedras e levasse consigo para o fundo do mar as 92 pessoas embarcadas. Mas o grande herói desta quase tragédia seria um outro “Skipper” (capitão).

Depois de mandar derramar algum óleo que lhe permitiu uma calmia momentânea, o comandante deu a volta oportuna e ordenou “steady as she goes” (assim como vai),direito à costa da enseada de Martin´s Point, uma praia pedregosa, mas naquele local a mais adequada para tal efeito. Antes, porém, determinara que todos a bordo tinham que envergar o colete de salvação e estavam proibidos de sair do interior do navio, para não serem lambidos pela ondulação que entrava pela popa e saía pela proa.

Com uma âncora flutuante disparada pela popa e as manobras adequadas a tal situação, conseguiu surfar lentamente na ondulação até atingir a costa pedregosa.

O primeiro embate do navio foi violento, parecia um trovão que ecoou pela falésia adjacente à praia. À medida que a ondulação batia na popa, o navio saltitava aos solavancos pela costa adentro, com os mastros e a chaminé oscilando como varas verdes, até que se quedou imobilizado entre duas rochas. Ficou adornado a bombordo, com parte da popa já destruída.

Era preciso, urgentemente, enviar um cabo mensageiro para terra, que premitisse estabelecer o cabo vaivém. Este cabo mensageiro era já aguardado por várias pessoas que se aglomeravam em terra.

Na primeira tentativa foi atirado à água um barril amarrado com uma linha, que acabou por se soltar. Na segunda tentativa foi enviada uma bóia de salvação, que também não logrou os seus objectivos porque a corrente, a partir de uma dada altura, fazia derivar a bóia ao longo da costa.

Na praia não havia voluntários com a coragem suficiente para se lançarem ao mar gelado e bravio para recolher o tão desejado cabo mensageiro. Os homens preferiam morrer de morte natural do que nadando na água gelada, pois sabiam que não sobreviveriam mais do que alguns escassos minutos.

Em terra estava presente o sr. Rueben Decker, um pescador residente em Martin´s Point, que possuía um cão Terra-Nova de nome “Skipper”, belíssimos animais conhecidos pela sua vocação para lidar com as coisas do mar. O dono ordenou-lhe que fosse buscar a bóia que teimava afastar-se de terra, balançando ao sabor das ondas e da corrente. O “Skipper” saltou de imediato para a àgua gélida e filou a bóia com os dentes, rebocando para terra a tão almejada linha que iria permitir estabelecer o cabo de vaivém e salvar as 92 pessoas embarcadas, incluindo uma menina de dezoito meses que viajava com a mãe e o avô.

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Uma a uma as pessoas foram evacuadas. Primeiro as crianças e as senhoras, depois os homens que viajavam como passageiros, e finalmente a tripulação. A menina foi enfiada num saco de correio que o avô, pendurado na bóia-calção, segurava com grande veemência entre os braços, bem apertados contra o peito.

O último a sair do navio, naquela noite de 11 de Dezembro de 1919, uma quinta-feira, foi, como de costume, o Cap. Edward English Jr., mas foi graças ao “Skipper” que o que poderia ter sido mais uma tragédia marítima se tornou numa espécie de sessão de treino de uma qualquer Instituição de Socorros a Naúfragos.

O heróico cão recebeu, como prova da sua coragem e abnegação, uma coleira com uma chapa em prata com a inscrição “Hero”, oferecida por uma sociedade humanitária de Filadélfia. O “Herói” foi também agraciado com uma cruz de prata por actos de bravura, atribuída pelos soldados de Camp Hill Hospital, de Halifax. Distinções que o “Skipper” começou a usar com um certo garbo e ostentação.  

O cão foi vendido por 60 dólares americanos a um residente de New Brunswick, que mais tarde se estabeleceu no Alaska com o “Skipper”.

Durante a sua vida no Alaska, o “Skipper” teve como amigo um jovem rapaz, vizinho do seu novo dono, com o qual estabeleceu uma mútua e profunda empatia.

Os cães terra-nova vivem em média dez anos, e algum tempo depois de viver no Alaska o “Skipper”acabou por morrer. Após a sua morte, a sua honrosa coleira com as respectivas “condecorações” foi oferecida pelo dono ao seu jovem amigo, como recordação da profunda amizade que sempre existiu entre eles... e como a única riqueza que o “Skipper” tinha para legar aos seus mais queridos, numa legítima e óbvia interpretação do que seria a última vontade do “Herói”.

A coleira ainda permaneceu nas mãos do rapaz por algum tempo para depois ser adquirida por um coleccionador de nome Dottie Olson, residente em Wrangell, no Alaska.

Bruce Ricketts, de Ottawa, é investigador e Presidente da empresa de informática Vizcan Sytems, durante o dia, e à noite administra com a sua mulher Anna Derks o espaço do site “Os Mistérios do Canadá”, onde são abordados vários temas sobre acontecimentos ocorridos naquele país.

Depois de ter abordado o tema deste naufrágio, enfatizando a proeza do “Skipper”, e ao ser lida pelo coleccionador D. Olson, logo este entrou em contacto com B.Ricketts dando-lhe conta da relíquia que possuía na sua colecção.

B. Ricketts propôs a D. Olson que a coleira, que fazia parte do imaginário colectivo dos terra-novenses, fosse legada para ser exibida no Museu da Terra Nova. A proposta foi aceite e a coleira foi entregue, em cerimónia especial, ao Ministro do Turismo, Cultura e Animação da Terra Nova, Mr. Charles Furey, que agradeceu em nome da Província da Terra Nova. Além de Bruce Ricketts, o fiel portador de tão honrosoa coleira, estavam também presentes o curador do Museu e a Sra. Hilda Menchions, de St. Jhon´s, na altura com 80 anos, e que era nada menos do que a bebé salva naquela noite de Dezembro de 1919, quando tinha apenas dezoito meses de idade.

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O lendário heroísmo do “Skipper” foi imortalizado em verso pelo poeta E.J.Pratt, que no seu poema chamou “Carlo” ao cão terra-nova.

Lord Byron escreveu sobre estes cães o seguinte: “Corajosos sem ferocidade, com todas as virtudes do homem, excepto os seus vícios.”

O “Skipper” era de cor preta, pesava 68 kg e media 70 cm do chão até à parte superior da omoplata.

Actualmente, os destroços do “Ethie” ainda jazem na praia e são uma atracção turística.

Dois anos após o naufrágio, em 21 de Outubro de 1921, uma sexta-feira, realizou-se na residência do Governador da Terra Nova uma cerimónia para agraciar o Cap. Edward English Jr., tendo-lhe sido oferecida uma salva de prata, para evocar o mérito, a coragem e o denodo com que conduziu as operações do encalhe, e o salvamento de todas as pessoas embarcadas no “Ethie”.

No dia 11 de Junho de 1929, terça-feira, nove anos e meio após o naufrágio do “Ethie”, houve uma reunião em St.John’s com a tripulação, os passageiros e o pessoal que ajudou ao salvamento em terra, para celebrarem a sorte de estarem vivos e relembrarem o acontecimento.

O evento foi organizado pelo Presidente da Reid Shipping Compay, Harry Reid, segundo filho do fundador da mesma, Robert Gillespie Reid. Após os discursos houve um almoço onde todos confaternizaram em grande alegria.

Só o grande “Herói” não pôde estar presente... Já morrera quem lhes salvara a vida.

 

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Réplica em peluche do cão herói Skipper

Carlo, by E. J. Pratt

I see no use in not confessing—
To trace your breed would keep me guessing,
It would indeed an expert puzzle
To match such legs with jet-black muzzle;
To make a mongrel, as you know,
It takes some fifty types or so,
And nothing in your height or length,
In stand or colour, speed or strength,
Could make me see how any strain
Could come from mastiff, bull, or Dane.

But, were I given to speculating
On pedigrees in canine rating,
I'd wager this—not from your size,
Not merely from your human eyes,
But from the way you held that cable
Within those gleaming jaws of sable,
Leaped from the taffrail of the wreck
With ninety souls upon its deck,
And with your cunning dog-stroke tore
Your path unerring to the shore—
Yes, stake my life, the way you swam,
That somewhere in your line a dam,
Shaped to this hour by God’s own hand,
Had mated with a Newfoundland.

They tell me, Carlo, that your kind
Has neither conscience, soul, nor mind;
That reason is a thing unknown
To such as dogs; to man alone
The spark divine—he may aspire
To climb to heaven or even higher,
But God has tied around the dog
The symbol of his fate, the clog.

Thus I have heard some preachers say—
Wise me and good, in a sort o’ way—
Proclaiming from the sacred box
(Quoting from Butler and John Knox)

How freedom and the moral law
God gave to man, because he saw
A way to draw a line at root
Between the human and the brute.

And you were classed with things like bats, 
Parrots and sand-flies and dock-rats,
Serpents and toads that dwell in mud,
And other creatures with cold blood
That sightless crawl in slime, and sink
Gadsooks! It makes me sick to think
That man must so exalt his race
By giving dogs a servile place,
Prate of his transcendentalism,
While you save men by mechanism;
And when I told them how you fought
The demons of the storm, and brought
That life-line from the wreck to shore
And saved those ninety souls or more,
They argued with such confidence, —
‘Twas instinct, nature, or blind sense.

A man could know when he would do it,
You did it and never knew it.

And so, old chap, by what they say,
You live and die and have your day,
Like any cat or mouse or weevil
That have no sense of good and evil,
(Though sheep and goats, when they have died,
The Good Book says are classified)
But you, being neuter, go to—well,
Neither to heaven nor to hell.

I’ll not believe it, Carlo, I
Will fetch you with me when I die,
And standing up at Peter’s wicket,
Will urge sound reasons for your ticket;
I’ll show him your life saving label,
And tell him all about the cable,
The storm along the shore, the wreck,
The ninety souls upon the deck,

How one by one they came along
The young and old, the weak the strong,
Pale women sick and tempest-tossed,
With children given up for lost,
I’d tell him more, if he would ask it—
How they tied a baby in a basket,
While a young sailor picked and able
Moved out to steady it on the cable;
And if he needed more recital
To admit a mongrel without title,
I’d get down low upon my knees
And swear before the Holy Keys,
That judging by the way you swam,
Somewhere within your line a dam
Formed for the job by God’s own hand,
Had littered for a Newfoundland.

I feel quite sure that if I made him
Give ear to that, I could persuade him
To open up the Golden Gate
And let you in; but should he state
That from your legs and height and speed
He still had doubts about your breed,
And called my story of the cable,
“A cunningly devised fable”,
Like other rumours that you’ve seen
In Second Peter, one, sixteen,
I’d tell him (saving his high station)
I scorned his small adjudication
And, where life, love, and death atone,
I’d move your case up to the Throne.

E. J. PRATT

Canadian Forum,
Vol. 1 (November 1920), 55 

AUTOR: Cdte. Joaquim Bertão Saltão

Publicado em: 
10 Dezembro, 2013
Categoria: 
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