Pela defesa da vida

Pela defesa dos Direitos do Homem

Pela defesa dos Direitos dos Animais

PELA PROTECÇÃO DOS INVISÍVEIS

Pouco mais posso fazer do que faço já actualmente. Infelizmente, porque as finanças pessoais mais não permitem. Vou cuidando de alguns, poucos, pequenos seres que cruzam o meu caminho. São poucos, é certo, mas para a vida deles faço toda a diferença do mundo.

Caíram nas pobres malhas da minha boa vontade uns quantos gatitos da minha rua. Seres que ora ninguém via, embora cruzassem frequentemente aquela rua, molhados e esfomeados, ora desejavam que desaparecessem para sempre, fosse como fosse, mesmo que implicasse promessas de morte. Como a do vizinho que muito se incomodava porque os gatos andavam por cima do seu carro (tal como do meu, obviamente) e deixavam marcadas as pegadas das patas… e dizia o homem que não podia ser, porque tinha logo de ir lavar o carro. Perguntei-lhe se não sabia que era SÓ um carro. Não estava vivo, não tinha coração nem sangue, não sentia fome nem frio. E as marcas das patas valeram promessas de morte. Estranhamente, já eu tinha retirado à pressa duas das gatinhas da rua, colocando-as em veterinário, duas semanas depois desta triste conversa (em que o senhor disse para quem quis ouvir que não entendia “por que as pessoas abandonavam um cão, porque bastava pagar sete euros e o canil matava-o”) o mesmo senhor morreu num acidente de automóvel. Em bom português confesso que pensei “há coisas do caraças!”.

Quanto aos gatitos da rua, comecei a deixar comida e água, e a dar-lhes palavras ternas, porque a alma também come. Em breve, esperavam pelo meu carro religiosamente e encostavam os corpos frágeis às minhas pernas. A parte mais difícil era a hora de partir e ver os olhos deles cravados em mim, sabendo que ficariam na rua, à mercê do frio e da chuva.

Eram, então, três gatas. Magras e tristes. Uma delas, linda como estrela de cinema, foi rapidamente baptizada Brigitte, em honra de Brigitte Bardot. Devo confessar que era a minha preferida. Uma tabby de tamanho pequenino, provavelmente fruto de uma infância pejada de fome. Depois havia a Nina e a Missy, ambas pretas, mas com o preto queimado que os gatos da rua têm, não o pêlo brilhante e sedoso em que se iria tornar. Depois chegou o Bebé, agora Jack, o único filhote sobrevivente da Brigitte. Também preto. Apareceu um dia encostado à mãe, com passo trôpego e desajeitado. Uma bolinha despenteada de pêlo negro, que se distraía a cada passo com uma folha, ou uma mosca, ou um ramo caído. O Bebé Jack nunca abandonou os quatro metros quadrados onde estava o seu comedouro e bebedouro, em cima de um muro. Mesmo quando a mãe se aventurava por outras paragens, o Bebé Jack ficava firme aguardando o meu regresso e a festa na cabeça, dada por um braço que mais não conseguia esticar para alcançar o muro. Mas a tempo as suas histórias serão contadas aqui…

Caiu também nas malhas da minha boa vontade a boa alma da minha veterinária, Carla Guerra, querida amiga, que volta e meia lá me via chegar com mais um pendura a precisar de desparasitação urgente e uma manta quente para recuperar da chuva e do frio. A fome, já eu lhes matava na rua, com comedouros de faiança sempre limpa, que repetidamente eram roubados. Ou por maldade… ou por alguém de tão miserável vida que até a taça dos gatos lhe seria útil. Prefiro pensar nesta última hipótese, em vez da maldade pura e simples.

Mais não consigo fazer, que me perdoem os pobres cães abandonados e escorraçados, para os quais não consigo ter lugar. Não porque não goste deles, mas porque a casa não permite, tendo os meus dois companheiros felinos e sendo pequena, sem varandas ou quintal.

Resta-me usar a minha voz, a minha escrita, na tentativa de tocar almas e corações. Recrutar amigos para este amor, para esta luta pela dignidade dos pequenos seres de quatro patas que ninguém quer, que ninguém vê.

Todos os dias largas dezenas de e-mails chovem na minha caixa de correio electrónico. Animais errantes, com fome, frio, doenças. Animais por quem centenas de pessoas passam diariamente, sem os ver, ou fingindo que não os vêem, voltando a cara… olhos que não vêem…

A maior parte dos animais na rua sofre a sina dos seres que andam por este mundo a padecer de uma doença universal e normalmente incurável: são invisíveis.

São invisíveis todos os seres que não queremos ver.

E nesta categoria não estão, obviamente, apenas os animais errantes ou abandonados. Estão também os humanos desgraçados, os pobres, os pedintes, os cegos de mão estendida.

Mas que não me chamem santa, que de santa nada tenho. Antes pelo contrário. Tão depressa me compadeço de um animal faminto ou ferido como de um qualquer pedinte, embora muitas vezes me interrogue por que diabos não tentam essas pessoas procurar trabalho.

Que ninguém pense estar livre da desgraça, é certo. Sabemos como adormecemos, não sabemos como acordamos. Procuro, portanto, não ser demasiado intransigente nos meus julgamentos… mas isso não impede que continue a pensar que o nosso destino está um pouco nas nossas mãos (com ajuda de uma boa dose de sorte a empurrar o nosso empenho)… enquanto o destino dos animais que decidimos domesticar há uns bons milhares de anos está inteiramente (!) nas nossas mãos. Nem sequer lhes permitimos ser selvagens, pois que vivem nas nossas cidades, e as selvas de betão não são bom habitat para a vida selvagem.

É esta a nossa pior cegueira: o coração cego, o sentimento mudo, a alma adormecida.

Por aqui estarei, sempre de tempo contado e com certeza com algumas ausências, acompanhada de alguns amigos peludos que procuram lar amoroso e permanente, sem risco de abandonos, alguns deles de adopção difícil, procurando almas gentis e pacientes, que lhes dêem todo o tempo do mundo.

Ter medo não é pecado, e se eu consigo arrancar destes temerosos seres ronronados e turrinhas, outro alguém conseguirá também, dando-lhes um lar verdadeiro, que não se limite ao quarto, confortável e protegido, é certo, onde hoje vivem.

Por aqui estarei, a tentar cativá-lo para este amor e respeito, a fazer de si meu aliado, a pedir-lhe que junte a sua voz à minha. Pelo cumprimento da Declaração Universal dos Direitos dos Animais. Mas também pela Declaração Universal dos Direitos do Homem. Pelo direito a uma vida sem fome, frio, doença e medo, que todos merecemos e que, portanto, também eles merecem. Todos sentimos! Todos temos medo! Todos mendigamos amor!
 

Temos alma = ANIMA

Somos sencientes = SENTIENS