Pagar os filhos dos outros…

Portugal está num processo de envelhecimento galopante. As famílias cada vez têm menos filhos e há cada vez mais gente a optar por nem sequer os ter. Há, também, quem tenha escolhido viver sozinho e quem a vida levou a não constituir família. No entanto, há igualmente quem queira ter filhos, vários filhos, e não o pode fazer por dificuldades económicas.

Pagar os filhos dos outros…

As coisas estão caras, os salários estão a baixar devido a, por um lado, uma carga excessiva de impostos, por outro, por um apelo constante à diminuição do preço do trabalho, e os apoios são nulos ou pequenos.

Há empresas que não querem mulheres grávidas e que exigem que seja assinado um acordo em que se comprometem a não engravidar. Há empresas que não querem mulheres, ponto final, apenas porque podem vir a engravidar.

Ter um filho é caro. Saúde, médicos, fraldas, alimentação, roupa que deixa de servir num mês. Ter um filho é absorvente e é terrível, tanto para a mãe como para o bebé, uma separação apenas após três meses de vida, o tempo legal de baixa de parto (o quarto mês de baixa é opcional para o pai ou a mãe, mas muitas mulheres regressam logo ao trabalho por medo de colocar o posto em risco). Durante muitos meses os pais vão ter noites mal dormidas e vão chegar ao trabalho cansados. A mãe vai também chegar triste e preocupada, porque teve de entregar o seu bebé de três meses ao cuidado de terceiros, desconhecidos.

O casal vai ter de pagar o berçário, o infantário, a creche… tudo coisas baratas, quaisquer 400 euros por mês tratam do assunto. Além de tudo o resto, é claro.

O governo acordou repentinamente. Aqui D’El Rei que é preciso incentivar os nascimentos. Como sempre, de boas intenções está o Inferno cheio e a montanha quer mesmo parir um rato. As propostas de apoios são ridiculamente baixas e, pasme-se, parece querer o governo que sejam os que não têm filhos a pagar a factura. Ou seja, quem tem filhos dependentes obtém benefícios fiscais, quem não os tem dependentes ou não os tem tout court tem de pagar uma taxa no Imposto de Rendimento (IRS).

Vejamos o caso de quem vive sozinho e não tem filhos. Há duas vertentes distintas: o jovem trabalhador, que mal ganha para se sustentar quanto mais para casar e ter filhos, muito menos para sustentar os filhos dos outros; o trabalhador maduro, nomeadamente a mulher na menopausa, que já não pode ter filhos e provavelmente nunca os teve por falta de condições económicas. Ou seja, além da enorme dificuldade que quem vive sozinho sente e de uma total ausência de apoio e compreensão do Estado por quem vive sozinho, e tem de fazer face a todas as despesas com apenas um (!!!) ordenado, sem quaisquer descontos especiais (para o Estado, quem vive sozinho só tem rendimentos, não tem despesas!), o governo ainda quer que se pague uma taxa extra, destinada aos filhos dos outros. Desculpe lá, Sr. Passos Coelho, mas se eu quisesse ter despesas com filhos tinha eu própria tido filhos, ou acha isso difícil de entender? E, já agora, que imposto o senhor vai criar para que os outros possam contribuir para as despesas que tenho com os animais que protejo, trato e esterilizo, substituindo-me aos deveres do Estado de cuidar dos animais do seu país, e que não são sequer consideradas para efeitos de dedução de impostos? O senhor sabe que um veterinário é também uma despesa de saúde e não tem nenhum Estado Social que dê apoios?

Fazemos um acordo, Sr. Passos Coelho: eu pago os filhos dos outros, e os outros pagam as despesas que tenho com a protecção dos animais. Boa?! Afinal, tudo se resume a despesas: os férteis com filhos e os que já passaram a idade fértil através de solidariedade, seja com pessoas carenciadas ou protegendo animais indefesos. A diferença, Sr. Passos Coelho, é que, bem ou mal, as pessoas lá vão tendo alguns apoios… os animais não se podem queixar que têm fome e estão entregues à sua própria sorte. Há sopa dos pobres, mas não para os bichos. Há Segurança Social, mas não para os animais. O que há, na esmagadora maioria dos casos, são canis de abate. Ou coloca-se a hipótese de eutanasiar também as pessoas sem-abrigo, sem rendimento, que precisam de apoios e que não podem contribuir para o Estado…?

E se quiser saber como custa viver sozinho, faça um simples exercício: um casal tem, normalmente, dois ordenados para suprir a renda de casa, água, luz, gás, telefone, televisão, taxas e mais taxas de tudo e mais um par de botas, saúde e alimentação. Sabe-se bem que onde come um, comem dois, e a despesa não aumenta drasticamente. Gastam mais gás e água para banhos, sim, mas a luz é a mesma. Portanto, a despesa de um casal não é muito superior à de um solteiro… mas o rendimento é geralmente a dobrar.

Infelizmente, já muitos casais passam também dificuldades, com pelo menos um dos elementos no desemprego e, em casos absolutamente dramáticos, com o casal desempregado ao mesmo tempo. Além da tragédia que se abate sobre estas vidas, é, também, mais despesa e menos rendimento para o Estado. E no caso em que um casal não tem filhos e tem um elemento desempregado, também paga os filhos dos outros?

Como já muito bem explicou o Professor Medina Carreira, estamos em exaustão fiscal, não é possível o Estado arrecadar mais receita via impostos. Ganhamos, regra geral, salários baixos; o Estado Social está a rebentar pelas costuras; os erros que têm sido cometidos sistematicamente pelos governos dos últimos 30 anos conduziram-nos à ruína; os negócios estatais ridiculamente absurdos sugam os impostos; a gestão danosa do Estado e de grandes Grupos Financeiros levam ao colapso da economia. Ainda não se viu ninguém pagar pela gestão danosa do País. Se qualquer um dos cidadãos não souber gerir a sua vida, arca com as consequências. Por que razão os governantes saem impunes?

Fica, então, combinado: os solteiros pagam os filhos dos outros, mas os senhores governantes e ex-governantes vão começar a pagar os contratos ruinosos que fizeram em rendas de energia, obras públicas, Parcerias Público-Privadas, resgates a BPNs, além dos fantásticos Subsídios de Inserção Social. Os senhores pagam todo o mal que fizeram, nós pagamos o resto. Parece justo.

Quem fizer uma campanha eleitoral assim terá o meu voto.

AUTOR: Filomena Marta

Publicado em: 
29 Julho, 2014
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