Oração de um cão abandonado

Oração de um cão abandonado

Mais um dia termina, estou muito fraco. Há dias que não como nada, só bebo água suja. Aqui, neste canto que arranjei para passar a noite, faz muito frio, o chão está molhado. As pessoas passam e fingem não me ver, estão com pressa para chegar aos seus lares.

Sabes, eu também já tive um lar.

Quando era pequenino todos me achavam uma gracinha, o meu dono, a minha dona e as crianças adoravam-me. Como sinto saudades das crianças. Dos seus risos, das suas corridas, de me puxarem o pêlo e a cauda.

Depois cresci… acorrentaram-me no fundo do quintal e só me soltavam à noite para tomar conta da casa. Que orgulho! Quanta responsabilidade! Tornei-me um cão de guarda. Às vezes zangavam-se comigo porque eu ladrava, mas havia gente que eu não conhecia junto ao portão, e eu não podia deixá-las passar sem avisar. E à noite, quando o meu dono chegava do trabalho, abanava a cauda, feliz… mesmo que ele não me fosse ver.
Passei muitos anos nesse quintal, fiquei velho e doente. Um dia, o meu dono levou-me a passear de carro. Já era tarde. Estranhei, porque ele há muito tempo já não tinha esse hábito. Mas fui feliz. Depois de muito andar, parou num lugar estranho. Saí, contente, pensando que iríamos brincar. Mas ele entrou no carro, não olhou para trás e deixou-me ali sem ao menos dizer adeus. Por instantes fiquei confuso, não sabia o que fazer. Depois tentei segui-lo, mas o carro era muito rápido… e quase fui atropelado.

Oração de um cão abandonado - Foto 2

Foi a última vez que vi o meu dono...

Como eu os amava! Que teria feito eu de tão mau?

Fiquei desnorteado durante vários dias, vagueei assustado e sem rumo pelas redondezas. Às vezes regressava ao mesmo sítio, com a esperança que ele regressasse para me vir buscar, que tinha sido apenas um engano.

Passaram-se muitos dias e muitas noites. As noites pareciam tão longas. Só então compreendi que ele não iria voltar, que realmente me tinha deixado ali… eu era mais um cão abandonado. Se calhar disseram às crianças que fugi, que saí à procura de aventura e que já não soube regressar. Imagino que tenham chorado. Sei que me amavam, como eu as amava também, e ainda amo…

Hoje, sou apenas uma caricatura do que era. Magro, sem pêlos, com feridas pelo corpo todo, quase cego e sem forças para estar de pé. Só bebo água suja. Estou faminto e ferido. Fui atropelado porque não sabia andar na rua. Por sorte, ou por azar, ainda conseguia andar e arrastei-me para o canto de chão molhado onde me deito. Faz tanto frio à noite…

Oração de um cão abandonado - Foto 3

As pessoas passam por mim e afastam-se. Já desisti de procurar nelas algum conforto, depois de tanto ter sido escorraçado. Ao princípio, antes de estar sujo e cheio de feridas, ainda paravam de vez em quando, mas por pouco tempo. Depois seguiam o seu caminho, cheios de pressa. E eu ficava. Sozinho. Mas hoje, os que me vêem afastam-se com uma cara feia… estou cansado e doente.

Sinto que o fim está próximo.

Peço a Deus, não mais por mim, mas pelos meus irmãozinhos neste mundo.

Ameniza-lhes o frio, Senhor, igual ao que sinto agora, com o calor dos actos de pessoas boas.

Diminui-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Mata-lhes a sede, com a água pura das lágrimas dos homens bons.

Alivia-lhes a dor das doenças e a elimina a ignorância dos Homens aqui na Terra.

Ampara as cachorrinhas prenhas, que poderão ver as suas crias morrerem de fome, frio e peste, sem nada poderem fazer.
Suaviza a tristeza dos que, como eu, foram abandonados, pois entre todos os males o que mais doeu foi este.

E rogo para que abrandes o coração dos Homens.

Creio que é chegada a hora de me encontrar Contigo.

Já não sinto mais dor...

Como último pedido, peço permissão para que, mesmo em espírito, eu possa ver novamente os meus donos.

Recebe, Pai, nesta noite gélida a minha alma.

Oração de um cão abandonado - Foto 4

Adaptado de um texto brasileiro de autoria anónima.