Oficiosamente pobres

A diferença está mesmo na palavra. Oficiosamente versus oficialmente.
O nível ou patamar de pobreza é medido por determinado mínimo de rendimento do agregado familiar. Uma pessoa, ou família, pode não ser considerada “oficialmente” pobre, apesar de não possuir capacidade económico-financeira para suprir as suas despesas mensais. Muitas vezes, o limiar do rendimento pode ser de 500 Euros, acima do patamar que define a “pobreza”, mas as despesas serem o dobro deste valor. Ora, estamos factualmente perante uma situação de pobreza. É a pobreza oficiosa*. Aquela que existe, mas não é normativamente considerada.

Oficiosamente pobres

Pobreza não é só viver numa barraca com telhado de zinco, sem casa de banho, e andar descalço. Pobreza não é só ser sem-abrigo e ter de recorrer à caridade. Pobreza é não ter dinheiro que chegue para pagar uma casa, alimentar os filhos e prover a sua educação. Pobreza é não poder comprar uns sapatos novos a uma criança, não lhe poder dar um brinquedo no aniversário e angustiar-se quando há uma doença e não há meios financeiros para a colmatar.

Pobreza é também a pobreza envergonhada. Aquela de gente que já teve um nível de vida razoável, que tem a sua casa média, o seu automóvel e já tem o frigorífico vazio, já alimenta a família inteira com sopa, já não pode pagar a universidade ao filho, já chora por não saber se terá dinheiro que chegue ao fim do mês para pagar a prestação ao banco… já às vezes se recorre, em desespero, a um qualquer Banco Alimentar.

Pobreza é ainda trabalhar e não ganhar o suficiente para ir trabalhar, não ter vencimento que chegue para o transporte e a alimentação fora de casa, porque aquele mal chega para pagar a renda de casa.

A americana Erika Eichelberger desmistificou num breve artigo 10 mitos sobre a pobreza (http://www.motherjones.com/politics/2014/03/10-poverty-myths-busted), um deles é o de que se não somos “oficialmente pobres é porque vivemos bem”. Refere que nos Estados Unidos o limiar federal de pobreza para uma família de quatro (casal com dois filhos) era de 23.283 dólares por ano, sendo que as necessidades básicas custam pelo menos o dobro disso em 615 regiões americanas. Outro mito é o de que “vamos para a universidade, saímos da pobreza”. Cá, como na América, muitos milhares de licenciados ganham abaixo das suas habilitações, muitas vezes rondando o salário mínimo nacional… quando conseguem um emprego.

As realidades podem ser diferentes, que o são obviamente, mas pobreza é sempre pobreza em qualquer parte do mundo. Se lá se fala de velhotas a comer comida de gato (“the days of old ladies eating cat food are over”?) por cá os nossos pobres velhos pobres não têm dinheiro para a farmácia e comem sopas de leite.

Mas, realmente, num país (o nosso!) em que o governo considera que quem ganha mil euros é rico… já acredito em tudo e até acho que comida de gato muitas vezes falta para os próprios gatos dos nossos velhotes, frequentemente (demasiado até!) a sua única companhia e conforto.

Hoje, temos neste país muitos pobres: oficial e oficiosamente.

oficioso: sem carácter oficial

AUTOR: Filomena Marta

Publicado em: 
25 Junho, 2014
Categoria: 
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