A necessidade da desobediência

Antes estávamos “orgulhosamente sós” (A.O. Salazar). Hoje “não podemos ficar isolados” (P.P. Coelho).

2011 - Guiné Equatorial - Vista de rua

E assim vamos de vergonha em vergonha.

Roubam-se salários e pensões para pagar Parcerias Público-Privadas (PPPs); atiram-se cidadãos para a miséria; aumenta-se a fome, nomeadamente de grávidas e crianças (Ah! Mas quer-se que se façam mais filhos!); “come-se” a mão de uma rainha em beijos alarves; e aceita-se um regime ditatorial, pródigo em execuções sumárias, na CPLP (quando nem falam português), porque “não podemos ficar isolados”.

Não, não podemos. Num caso destes “devemos” ficar isolados. Mas os petrodólares são fortes. Já está tudo com os olhos postos no petróleo de um ditador que está entre os homens mais ricos do mundo, mas cujo povo vive na miséria, na fome e no medo.

Mais uma vez este governo se revela fraco com os fortes, mantendo-se forte com os fracos… mas… é impressão minha ou isto não é parecido com o conceito de ditadura? Agora, imaginem que se descobria petróleo no Alentejo…

A entrada da Guiné Equatorial na Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), com o beneplácito geral, é uma vergonha acima de nacional: é uma desonra internacional. Este é um caso em que deveríamos ficar “orgulhosamente sós”. A desculpa para esta entrada é esfarrapada: ajudar o povo da Guiné Equatorial, levar até eles a Democracia. Isto é, mutatis mutandis, a mesma coisa que convidar um assassino para jantar, depois de ele matar a vítima.

Se a comunidade internacional, e nomeadamente a CPLP, estivesse realmente interessada em “libertar” este povo, em garantir-lhes a Democracia (que, coitadinha, anda tão pelas ruas da amargura), já há muito tempo teria arranjado formas de pressão eficazes e adequada vigilância do cumprimento das regras democráticas. Se o interesse fosse realmente desinteressado, sem olhos postos no ouro negro, exigir-se-ia, primeiro, que a realidade da Guiné Equatorial fosse drasticamente alterada, para, então, se contemplar a sua entrada na CPLP, de acordo com os cânones democráticos. Mas alguém acredita que depois desta entrada alguém vai fazer alguma coisa, alguma pressão, exercer alguma vigilância? O povo vai continuar miserável e a sofrer (a taxa de pobreza é acima dos 75%), mas alguns irão ficar muito mais ricos com isto. O fundamento mantém-se e é sempre o mesmo: o poder económico.

Entretanto, vamos assistindo à destruição deste Mundo e culpando a Cadeia de Comando… mas a culpa é da Cadeia de Obediência. São os que obedecem que largam as bombas atómicas, que massacram aldeias e povos, que accionam os fornos do Holocausto. Esta Cadeia de Obediência trava guerras, comete genocídios, faz execuções sumárias. Porque para alguém mandar, alguém tem de obedecer.

Impõe-se, urgentemente, a desobediência.

2011 - Guiné Equatorial - Vista de Rua

Foto: Human Rights Watch, Guinea Ecuatorial - http://www.hrw.org/es/world-report-2012/guinea-ecuatorial

 

AUTOR: Filomena Marta

Publicado em: 
23 Julho, 2014
Categoria: 
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