Na pele de Cecil… (ou talvez não!)

O Mundo já esqueceu Cecil? Talvez… as notícias têm um rastilho curto, tão curto como a memória dos Homens. Pelo menos por cá, morreu a morte do leão Cecil. Lá fora ainda se fala no cruel evento, no dentista fugido, nas reacções do governo e do povo do Zimbabué. Menos, muito menos, mas ainda se vai falando.

Cecil

Para já, o dentista veste a pele de Cecil. Um dia é da caça, outro é do caçador, já diz o velho ditado. Agora o caçado é o dentista, o acossado e acusado, mas com a fundamental diferença de que ele pode fugir, enquanto Cecil foi atraído traiçoeiramente com uma carcaça de elefante para fora da reserva, onde o esperava a morte fria e calculada. Alguém disse, e muito bem, que isto não foi uma caçada, foi como a entrega de uma pizza. Que homem tem um instrumento sexual tão diminuto que retire prazer da morte entregue de bandeja de um ser de um portento jamais igualável ao do criminoso? Faz-me lembrar uma anedota, a do homem que fez testes de fertilidade e recebeu como relatório as siglas SSPM: “Só Serve Para Mijar”. Perdoa-se a brejeirice por um bem maior…

Disse variada imprensa mundial que o povo do Zimbabué nem sequer sabia que tinha um leão famoso chamado Cecil… outros avançaram que o próprio nome do leão era uma afronta e fazia referência ao colonizador. Muitos referiram que o povo estava indignado por a morte de um leão fazer mais alarido no mundo do que a fome e as dificuldades da população… voltemos à brejeirice: mas o que é que o c* tem a ver com as calças? A desgraça de um país e de um povo está geral e intimamente ligada a uma questão política, de (des)Governo e (des)governação, de regimes déspotas, onde geralmente os detentores do poder e seus lacaios vivem na fartura e opulência enquanto a plebe passa fome e doença. Também passa pela passividade de um povo, mesmo que a geografia seja mais castigadora, mesmo que o clima não ajude, há povos que se habituam a viver na miséria e a queixar-se da miséria, mas que pouco fazem para inverter a sua sorte e minorar o seu infortúnio. A diferença fundamental contínua a ser a capacidade que o Homem tem de interferir no seu ambiente, ser detentor de livre arbítrio, de poder moldar o mundo e a sua realidade. O leão, não.

Chorar e indignarmo-nos com a morte de um leão não significa que sintamos menos pela miséria do povo. Por outro lado, este povo nem sequer sabia que um leão, um simples leão, os alimentava apenas por existir. Por ser famoso, por ser um símbolo, por haver quem quisesse fazer turismo naquele país e pagar para tirar uma fotografia ao portentoso rei da selva de juba negra. Assim sendo, o crime do dentista foi maior do que tirar a vida a um majestoso animal: foi tirar uma parte do sustento de um povo. Esse povo, então, deveria ser o primeiro a clamar por justiça.

O que fez a diferença na morte de Cecil perante o mundo? A fama. Cecil não foi o primeiro leão a morrer às mãos de carrascos desumanos, mas agora muitos querem que tenha sido a morte do último leão, e que as caçadas terminem, e que os animais selvagens, leões como outros, sejam poupados e protegidos. Com a morte de Cecil olhou-se para os elefantes, os ursos, os rinocerontes, as girafas e, claro, os leões. Olhou-se para a cruel indústria e comércio da chamada “caça grossa”. E pelo menos daí já surgiu a proibição, por parte de algumas companhias de aviação comercial, de transporte de troféus de caça. Mais um passo. E surgiu a perseguição ao caçador, para que responda pelo seu crime. Outro passo. E surgiu a comoção de milhares de pessoas nos mais variados países, acesa pelas redes sociais. Ainda outro passo. Que a velocidade de comunicação actual permita, pelo menos, acender a justiça rápida no coração dos Homens. Mas que não esmoreça com rapidez igual.

Matar não pode ser um desporto. Matar não pode ser um prazer. Caçar é matar por prazer e por desporto. Caçar é deter um perfil de psicopata e sociopata… e lembre-se que muitos serial killers eram excelentes e cordiais vizinhos.

AUTOR: Filomena Marta

Publicado em: 
17 Agosto, 2015
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