O mistério da morte de dois "GNR"

Morreram dois elementos da GNR (Guarda Nacional Republicana) num acidente de trânsito. Uma colisão frontal numa zona de curvas. O ligeiro da GNR e um pesado de mercadorias. É isto que se sabe, nada mais.

Mortes prematuras, de militares não só na flor da vida, mas também que dignificavam o nome da sua instituição pelo seu mérito. As mortes são sempre prematuras, mas estas idades (uma mulher de 36 anos e um homem de 37) comovem-me particularmente, pois foi a idade com que o meu próprio irmão morreu, também ele numa estrada, também ele num acidente que envolveu um camião. Diferentes acidentes com igualmente trágicos desfechos. Conheço a dor que as suas famílias estão a sentir.

O texto é simples e repetido em diversos Meios de Comunicação, sempre com as mesmas palavras e o mesmo teor: TVI, Correio da Manhã, RTP, SIC, CMTV, e mesmo alguns blogs apresentaram as mesmas (vagas) informações.

Todas as notícias referem o mesmo, como é expectável de textos plasmados de agências de notícias, neste caso da LUSA, e sem posterior pesquisa (que é coisa que dá trabalho):

“A fonte* indicou que o acidente ocorreu numa curva na Estrada Nacional (EN) 256, perto da povoação de Vendinha, no concelho de Évora, envolvendo a viatura ligeira da GNR e um pesado de mercadorias./ O condutor do camião também foi transportado para as urgências do hospital de Évora por ter entrado ‘em choque’./ Fonte do Comando Distrital de Operações de Socorro (CDOS) de Évora disse à Lusa que o alerta para o acidente foi dado às 16:18./ Para as operações de socorro foram mobilizados 25 elementos e nove viaturas dos bombeiros de Évora e de Reguengos de Monsaraz, GNR e do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), incluindo uma viatura médica de emergência e reanimação (VMER).”

Como foi o acidente, ninguém sabe, ou ninguém diz. O que aconteceu?

Com todo o respeito e comoção por estas mortes trágicas, se este mesmo acidente se tivesse passado com uma viatura particular, de um comum mortal, já todos os pormenores eram sabidos e já se teria falado com quantas testemunhas se encontrassem no local ou perto dele ou que apenas tivessem ouvido falar no acidente. Já se saberia se iam em excesso de velocidade, se tinha havido manobras perigosas ou álcool, se fora uma distracção, fosse o que fosse. Já se saberia quem teria a culpa, se a viatura ligeira, se o pesado de mercadorias.

Para o meu irmão não houve nove viaturas de bombeiros, nem 25 elementos e depressa se soube o que tinha acontecido: um pneu rebentou, ele dominou o automóvel, encostou na berma de segurança, saiu e dirigia-se à bagageira quando um camião entrou na zona de segurança e o atropelou mortalmente, projectando-o. Não havia curvas, a visibilidade era boa, os quatro piscas estavam ligados, e o condutor do camião só se lembra de ouvir um barulho. Fora o embate do veículo no corpo e a hipótese mais flagrante foi o condutor do pesado ter adormecido. No minuto errado, no sítio errado.

O que é estranho é que num acidente comum tudo se saiba rapidamente e que a morte destes GNR continue a ser um mistério. O que aconteceu? Ninguém diz.

Paz às suas almas.

A “fonte” é “alguém” da GNR em declarações à LUSA

AUTOR: Filomena Marta

Publicado em: 
24 Junho, 2014
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