Dá licença que respire…?!

Dá licença que respire…?!
Por Filomena Marta

Sete da manhã. A hora a que o meu dia começa, todos os dias, e felizmente a hora a que o “meu” cafezinho abre também. Ao fim de tantos anos, sou mais amiga do que cliente e ganhei o direito a fazer de determinada mesa um posto de trabalho, ao computador, antes de começar a guerra diária. É nessa mesa que escrevo estas linhas.

A guerra diária é a passagem pelo Inferno para se abrir um negócio em Portugal. Chamam-lhe pomposamente “criação de próprio emprego”, mas sem uma elevada dose de inteligência, determinação, paciência, murros na mesa e gritos, é uma tarefa praticamente impossível. A “Mission Impossible” de Tom Cruise, comparada com isto, é uma brincadeira de crianças.
Lembra-se da história do “papel, qual papel, o papel”? Pois é, por cá falta sempre um papel! São meses e meses em que falta sempre mais um papel. De tudo e mais um par de botas.

Mas voltando às sete da manhã, eis que entro para o cafezinho matinal e dou de caras com as letras gordas de um jornal a dizer: ”Sol e vistas aumentam IMI em 10%”. Só podem estar a brincar. Então agora o Sol paga-se?! 

Vamos todos tapar as janelas e viver à luz de velas!!! Já se pagam trezentas e setenta mil taxas para a água e para a electricidade, até se paga taxa de audiovisuais, portanto o que nos espera é pagar o sol, o olhar pela janela e, quiçá, a breve prazo pagar por ver, por respirar, por ter sofás e até bibelots. Já há parquímetros nas praias, o passo seguinte vai ser cobrar bilhete de entrada para estender a toalha e usufruir de um banho de sol, mais uma taxa suplementar por ir molhar os pés e taxa agravada se quiser dar um mergulho.

Andar a pé sem pagar? Outra coisa que com certeza irá acabar. Ai quer ir dar um passeiozinho higiénico? Paga! Era o que mais faltava apanhar ar e sol e “gastar” calçada e alcatrão sem pagar. Respira? Paga. Transpira? Paga. Fala? Paga. Sorri? Paga. Iremos chegar, eventualmente, ao: Vive? Paga! Já pagamos para morrer, portanto não é de estranhar uma taxa por nascimento, a pagar anualmente até ao dia do nosso funeral, que por acaso é caro.

Não é que os nossos governos precisem de ajuda na imaginação para criar taxas e impostos, mas caso andem ligeiramente distraídos na quantidade de coisas que ainda não pagamos aqui ficam estas “achegas”. 

Quanto ao Sol… vamos todos mudar-nos para aqueles belos países que têm seis meses de noite, o que talvez explique por que são tão desenvolvidos e com tanta qualidade de vida. Não pagam taxa de Sol!
 

 

AUTOR: Filomena Marta

Publicado em: 
6 Outubro, 2016
Categoria: 
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