Historias reais: Um falcão no mar - por Luiz Moita

Há muitas histórias sobre o mau tempo no mar e sobre elas até grandes compositores escreveram Óperas, como Wagner e o seu “Navio Fantasma”, e Rimsky-Korsakov, ele próprio oficial da Marinha Russa, e a sua ópera “Sadko”, uma espécie de “Sindbad, o marinheiro” em versão moderna.

Curaçao

Pois bem, aqui vem mais uma dessas peripécias (desta vez de curta narrativa), sob a forma de um furacão nas Caraíbas, misturado com a estranha aventura de um pássaro de terra, perdido no meio do mar, a muitas milhas da costa mais próxima.

No que toca o pássaro vou contar-vos todos os pormenores do que se passou, tal e qual, na realidade. No fim, por favor, não me façam perguntas sobre a fantástica história do animal e de como foi possível acontecer. Por aqui pouco se sabe de Biologia e muito menos de Ornitologia, pelo que não saberia dar uma resposta satisfatória.

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Curaçao 

Tudo começou num dos últimos dias de Agosto de 1965, no maravilhoso porto de Willemstad, em Curaçao.

O navio “São Mamede” tinha entrado três dias antes para lavagem de tanques e carregamento de gasolinas e combustíveis de aviação. Três dias bem passados naquela “Holanda” dos trópicos, onde, na rua, as lindas morenas contrastavam com as loirinhas vindas da Metrópole.

A SHELL tinha ali uma das suas maiores refinarias do mundo e o “Clube Shell” convidava os oficiais dos navios para festas e espectáculos diversos. Depois, havia a praia. E as piscinas do clube, onde se ia para o bar bebericar umas “piñas coladas” ou umas “cubas libres” indescritíveis, ao som da alegre música de ritmos latinos, e conversar com uma holandesa simpática ou uma crioula não menos atraente.

Enfim, tudo o que é bom dura pouco e agora estávamos de partida, ao fim da tarde, ao pôr-do-sol, saindo nas águas tranquilas do canal a fim de seguir directos a Lisboa.

O Capitão tinha dado ordem de seguir pelo Norte, directo a Sombrero e Anguilla, para se fazer a ortodrómia* para o destino. A saída pelo sul costumava ser por Martinica, Dominica, mas era de maior distância.

No entanto, aquela decisão não agradava a ninguém. A meteorologia noticiara o furacão Betsy com ventos de mais de 150 Km/h, deslocando-se directo a Miami e à Florida. Mas que raio de ideia! Íamos passar mesmo perto e não seria certamente muito divertido. Ainda por cima, ao pé do célebre triângulo das Bermudas…

Eram as manias estranhas daquele Capitão, grande marinheiro, antigo Piloto da Aviação Naval e Oficial da Armada, mas muito introvertido, pouco falador e pouco sociável. Era fotógrafo e “spotter” viciado, revelava e ampliava a bordo as suas próprias fotografias, enquanto ouvia discos de vinil a tocar sinfonias de Beethoven ou Óperas de Wagner, sempre acompanhado da sua inseparável cadela “Tucha”. Claro que naqueles tempos ninguém sonhava sequer com CD`s e fotografia digital!

O tempo estava bom e nada pressagiava o que nos esperava para o dia seguinte. Estava mar estanhado, ar calmo, só a morna aragem da deslocação do navio se fazia sentir. Foi de pouca dura. Durante a noite o vento começou a soprar fresco de sueste e o mar a ficar cavado, com vaga grossa.

Vinte e quatro horas depois da nossa partida fecharam-se todas as portas e vigias, o pessoal da ponte a meia-nau ficou isolado da ré e só alguns marinheiros passavam com harnês, cabos e gatos de segurança à volta da cintura, pelo passadiço de meio-navio para chegar avante. Durante dois dias não foi possível cozinhar a bordo. Comíamos restos dos frigoríficos e ninguém conseguia dormir com os violentos balanços. O casco do navio rangia de maneira terrível, parecia que ia partir-se. O mar corria por cima do convés até à ré e a proa mergulhava nas vagas enormes, parecendo não querer voltar ao de cima. “Este Comandante não regula!” pensei comigo, “se calhar o que o fulano quer é tirar fotografias para mostrar em terra aos amigos…”

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Sombrero Farol

Maldição! Passámos entre Anguilla e o farol de Sombrero, entrando directamente no Atlântico, debaixo do pior dos temporais.

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Ao terceiro dia de navegação o vento tornou-se menos forte, a vaga diminuiu e foi finalmente possível passar para ré. Entrei de quarto ao meio-dia, extenuado, depois de três dias sem dormir. Consegui ir à asa da ponte para melhor me aperceber do estado do tempo. O céu continuava muito nublado, o vento era agora forte de noroeste, o mar continuava cavado mas a vaga diminuíra. De repente, olhando para o céu e para ré fiquei estarrecido: no ar, atrás da popa do navio, um falcão sobre o mar, enorme, voava majestosamente lutando contra o vento, seguindo teimosamente o navio como derradeira esperança de sobrevivência!

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Sabíamos que, quando há grandes tempestades, as aves são por vezes arrastadas pelo vento para o mar, onde acabam por cair extenuadas, vencidas pela exaustão, morrendo sem qualquer possibilidade de voltar para terra.

Há quanto tempo viria aquela águia atrás de nós? Estávamos já a mais de trezentas milhas da terra mais próxima e era espantoso que ela ali estivesse e se aguentasse no ar com um esforço indescritível, batendo as asas sem repouso e sem pousar. Porque não pousava no navio? Provavelmente porque a visão acidental das pessoas a bordo a afugentaria. Durante o dia inteiro a imponente ave voou, voou sem parar, mas ao cair da noite reparei que pousara no topo do mastro de vante para ali passar a noite.

O tempo começou a melhorar e quando entrei no quarto da noite, à meia-noite, o meu primeiro pensamento foi ver se o falcão ainda lá estava. Perguntei ao outro piloto, mas na noite nada se via e não soube responder-me. Com os “flashlights” vislumbrava-se uma vaga sombra no topo do mastro, mas ninguém podia ter a certeza. Lembrei-me então da lanterna “ALDIS” dos sinais morse luminoso. Apontei-a com o gatilho premido e com a outra mão segurando o binóculo: lá estava o falcão! Com os olhos bem abertos, espantados, mas estático e pousado na verga do mastro.

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Lanterna ALDIS

 

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O S.Mamede. No mastro de vante pode avistar-se a verga onde a ave pousava para dormir à noite.

Durante o quarto, até às quatro da madrugada, para além das rotinas de navegação e do boletim da “meteo”, entretive-me a dar tratos à imaginação, pensando nas probabilidades do falcão se salvar. Se a gente o conseguisse apanhar… metia-se num camarote, dava-se-lhe água e comida e soltava-se à chegada a Lisboa. Mas como?

Na manhã seguinte, quando voltei à ponte, já toda a gente a bordo falava do falcão. E lá ia ele a voar novamente atrás do navio. Já devia andar ali há três dias, sem beber, sem comer e a voar durante o dia inteiro! Como era possível?

De volta ao quarto da meia-noite, conversei com os marinheiros da vigia sobre o assunto. Agora, estava o pássaro novamente pousado no mastro de vante, a descansar na noite. Diz um marinheiro:

- A gente podia fazer o seguinte: o “xô” piloto atira-lhe com a luz da “Aldis” para cima. O bicho fica encandeado e eu vou lá acima, com as luvas da manobra e agarro-o.

Respondi:

- Não sei se ele se deixa agarrar. Vai ser difícil! Mas vamos tentar.

O marinheiro desceu, vi-o passar por baixo para o convés de vante, dirigir-se ao mastro e começar a subir lenta e cuidadosamente. Acendi a “Aldis”, com o foco de luz para cima do pássaro. O marinheiro subiu no escuro, estendeu lentamente a mão e agarrou o animal, apertando -o contra o peito.

Há que reconhecer que este marinheiro foi o grande herói desta história: subir ao mastro não era difícil... mas descer com aquela águia enorme agarrada ao peito já não era tão fácil.

De volta à ponte, pusemos o bicho em cima da mesa de navegação.

De asas abertas tinha mais de um metro de envergadura!

Diz o marinheiro:

- Oh “xô” piloto! É lindo! Parece a águia do Benfica!

Respondi:

- Bem! Faz favor mete o bicho no meu camarote, vamos atar-lhe uma pata com este pedaço de cabo de retenida e prende-se ao cano do lavatório, que depois trato dele.

Às quatro da manhã, excitado com o sucesso da captura e com a curiosidade do desenrolar do acontecimento, fui ao frigorífico da copa a meia-nau e tirei um bocado de carne crua. Cortei-a aos bocados para dentro de um prato. Depois, peguei numa garrafa de água e numa malga. Com as grossas luvas de manobra calçadas, fui para o camarote. Já estava tudo cheio de porcaria e quando tentei dar carne a comer e água na malga para beber, o pássaro desatou-me às bicadas às luvas furioso e piando de raiva : guim! guim! guim! guim!

Depois limpou-se aquela porcaria toda o melhor possível e cobriu-se o chão com restos de jornais e revistas velhas retiradas do salão.

Pois o “Mamede”, baptizado pela tripulação, só começou a comer, morto de fome e sofregamente, depois de mais três dias! Espantoso!

Era a grande novidade a bordo. O tempo ficara bom entretanto e o Capitão, como que resmungando entre dentes, quando passava por mim não perdia a oportunidade:

- Ouça lá… Você não percebe nada disso… Os falcões têm que ser treinados desde pequenos por gente que saiba… Com uns carapuços especiais, com os olhos vendados, para depois conhecerem o dono. A falcoaria é uma arte muito antiga e tem muito que saber…Ouça lá, percebeu?

- Sim! Sim! Senhor Comandante, eu só quero salvar o bicho…

E felizmente para o bicho e para nós todos, que “torcíamos” por ele, chegámos a Lisboa depois de doze dias de viagem.

Atracámos em Cabo Ruivo. Formalidades e “visita” das autoridades. Tudo bem. Estava uma manhã de sol, quente, típica de um dia de Setembro. Quando tudo ficou sossegado a bordo, o segundo Maquinista, o segundo Piloto, o Imediato e eu fomos buscar uma garrafa de champanhe e preparámos a “largada” do “Mamede”.

Grande Festa! Peguei nele, como sempre, com as luvas de grosso cabedal quase até ao cotovelo. Agora já não oferecia muita resistência e estava a ficar habituado. Chegámos à borda e atirei-o para o ar. O falcão voou, mais uma vez, imponente. Subiu, deu duas voltas sobre o navio, talvez para reconhecimento do local… ou para despedida? Depois, dirigiu-se para Norte e desapareceu por trás das árvores de Olivais ao longe.

Nunca mais o vimos. Abrimos o champanhe e bebemos à saúde do “nosso” falcão. Afinal, ele tinha conseguido atravessar o Atlântico, mais de três mil milhas náuticas, seis mil quilómetros, e chegara salvo e de saúde a Portugal! O Imediato riu-se e, segurando na taça de champanhe, disse:

- É assim na vida! A todo aquele que se esforça, aparece sempre uma mão amiga para o ajudar…

Às vezes uma situação desesperada pode ter um final feliz e inesperado...

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O Furacão “Betsy”

Nota do autor para “não-marítimos” : 

*Ortodrómia : arco de círculo máximo que representa a distância mais curta entre dois pontos na superfície de Terra. O rumo vai variando à medida que se prossegue na viagem.

A “loxodrómia” representa uma distância maior, mas tem a vantagem de ter o rumo constante.

O “Titanic” seguia a ortodrómia, caminho mais a Norte, quando se deu o seu abalroamento com o iceberg.

Nota do Anima Sentiens:

Luiz Moita é comandante da Marinha Mercante, na altura desta história comovente tinha 26 anos e era Terceiro Piloto no navio “São Mamede”: “Nunca esquecerei a alegria de ver o falcão dar duas voltas sobre o navio e voar para Norte”.

Agradeço também o envio das fotografias, que muito embelezaram o artigo.

AUTOR: Luís Moita

Publicado em: 
27 Fevereiro, 2014
Categoria: 
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