A herança de Noé

Ausências forçadas por cansaço, aquele cansaço emocional que nos drena força anímica, que nos leva a colocar em causa tudo e todos, a verdade e a esperança. Esta ausência da escrita que dura há já demasiado tempo e me fez abandonar a minha alma, esta modesta “percepção da alma” dita tão pomposamente “Anima Sentiens”.

A herança de Noé

Um cansaço também do reincidentemente triste panorama do meu país, de políticos sem alma, de jogos de poder obscuros num tabuleiro onde se jogam milhões de almas. Um chegar à angustiante conclusão de que o Mundo está a perder a sua alma.
Almas sem alma… é esta a herança de Noé? É este o erro do Criador? É a verdade do Mundo?

Fui ver Noé ao cinema. Um filme denso numa mensagem que creio nem todos compreenderem. Uma amiga queixa-se “ai que raiva quando ele queria matar os bebés”, outra suspira “que seca de filme”. E os meus olhos abrem-se, numa interrogação sem resposta possível. Toda a trama densa, toda a chamada de atenção, todo o dedo acusador apontado ao Homem, receptáculo e difusor de todo o mal, toda a tensão de um erro assumido de Criação, tudo perdido na distância que vai do ecrã à cadeira, onde distraidamente se mastigam pipocas. Um som que não combina com a aniquilação, que deveria ter sido total, da Humanidade inundada pelo Dilúvio. Deveria ter sido total, mas não foi. Por uma hesitação de Noé. Porque nos resta a dúvida final, se o Criador cometeu o erro de confiar a limpeza do Planeta, a exterminação do Homem, do seu erro, a outro humano… ou se aquela bondade humana, afinal, se tornava na derradeira esperança para a Humanidade. Noé não matou e deixou por herança ao mundo as suas netas, mais dois ventres a juntar às duas últimas mulheres do Mundo. A sobrevivência da Humanidade.

Durante todo o filme nunca é referida a palavra Deus, sempre é mencionado “Ele”, o “Criador”. Uma universalização inusitada e inesperada da religião, e uma espantosa confissão de imperfeição divina. O Criador errou. Criou o Mundo, a Natureza, todas as ervas e os animais. E tudo estava bem. Depois criou o Homem. E o Homem conspurcou o Mundo. E “Ele” contemplou o seu erro e decidiu que o Mundo ficava melhor sem o Homem. Mas confiou num Homem para dizimar a Humanidade. Confiou num erro. E novamente errou.

Ou não? Ou pensar-se-ia que a linhagem de Caim estava exterminada e que a bondade prevalecia a bordo de uma Arca, num Homem que jurara cumprir a “Sua” vontade, mas que falhara, por amor? Milhares de anos volvidos, qual é no Mundo a herança de Noé? Os que cuidam, amam, sofrem e protegem… ou os que abusam, matam, exploram, escravizam?

Olhando o Mundo, milhares de anos depois, o que mudou? Guerras, ódios, terrorismo, raiva, maldade, extremismo, loucura, fanatismo, abuso de força e de poder, opressor e oprimido, senhor e escravo, assassino e vítima, tiranos, ditadores disfarçados de líderes, pecadores. Mas também santos. Também bons, bondosos, sensíveis, humanos, protectores, cuidadores, curadores. O problema é sempre o equilíbrio, a proporção do “bem” e do “mal”. Mas também a resiliência dos bons, a coragem de lutar pelo justo. Os maus assustam, mas a coragem não é ausência do medo, é agir apesar do medo. E o cansaço? Pois… o cansaço. Um Homem bom pode sentir-se assoberbado pelo multiplicar do mal. É como a “exaustão do protector”, o sentimento esmagador de não conseguir salvar todos.

Ler com atenção as notícias dos jornais, ler com olhos de ver, pode ser profundamente massacrante, debilitante e traumatizante. O homem que matou outro à facada, o homem que matou a família, a mãe que matou os filhos, a guerra num qualquer território, a austeridade que esmaga países, a fome num planeta que desperdiça toneladas de comida, os radicais islâmicos que raptaram 270 raparigas e anunciaram aos pais e ao mundo que as iam vender e tornar escravas. A psicopatia arrepiante, a deformidade de carácter, a aberração humana.

Nações inteiras submetidas a tricas de poder, povos subjugados pelos jogos financeiros, a ausência de direitos, de todos os direitos, humanos e animais. A ascensão da pobreza, a desvalorização do trabalho, o aumento do fosso entre fortes e fracos, ricos e pobres. O despotismo. A inversão de valores.

Precisamos, urgentemente, de um novo Dilúvio.

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AUTOR: Filomena Marta

Publicado em: 
6 Maio, 2014
Categoria: 
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