O Futuro é Hoje

A vida não somos só nós, a vida não é o “eu”, a Vida é o que acontece à nossa volta enquanto estamos distraídos com o nosso umbigo.

O Futuro é Hoje

Ao contrário do que alguns “life coachers” (que nome bonito!) ensinam, a vida não é “eu”, não é sermos felizes “porque sim”. Um “life coacher” de 60 anos até admito que tenha coisas para ensinar. Um “treinador de vida” que já viveu o suficiente para ter visto muito, para ter conhecido muito, para ter sofrido, amado, desamado, ter-se iludido e desiludido, ter conhecido a vida e a morte, amigos e inimigos… um “treinador” desses até pode ter muitas coisas para dizer que devem ser escutadas. Um “life coacher” de 30, bem, terá assim tanto para dizer? Conhecerá assim tanto? Estará tão focado em si próprio que ensine a todos que a “a vida és tu”, “a felicidade és tu”…?

Ontem, para além do meu umbigo, morreu um amigo. Chamo-lhe amigo, embora já não nos víssemos há muitos anos. E hoje tenho pena de não nos termos visto durante tantos anos. Os nossos pais são amigos e colegas de profissão há décadas, nós apenas seguimos rumos diferentes.

Penso que a vida, afinal, não somos “eu”. Somos “nós”, somos “outros”, somos “todos”. E a nossa felicidade reside no Mundo, no que fazemos nesta vida e da nossa vida. Centrarmo-nos no “eu” é isolarmo-nos do mundo e da vida. A vida é o que acontece todos os dias, a felicidade pode estar em alimentar aquele gatinho magro da nossa rua, em fazer um carinho a um cão, em ajudar um amigo. A maior felicidade não é “ser amado”, é “amar”. Esse é o único sentimento que está dentro de nós. O outro é exterior a nós, é algo que nos atinge mas que realmente não sentimos. É o “outro” que ama, é o outro que vive esse sentimento de dádiva, de calor interior.

Não conseguimos amar ninguém se não nos amarmos a nós próprios, é um ensinamento comum. Mas também não conseguimos amar-nos a nós próprios se não amarmos nada nem ninguém na vida. Para além do nosso umbigo há um Planeta inteiro. Há coisas boas e más, há dor e alegria, há fome e desperdício. Para lá do nosso umbigo, há quem precise de nós.

Sei que o meu amigo precisou de alguém, precisou até de mim nesta enorme distância temporal que nos separava. Sei, hoje, que deveria estar num imenso sofrimento interior, perdido, só. Mas há quem nos diga que o “eu” é que é importante, e tantas vezes acreditamos. Mas o Pedro era o “outro”, e os outros precisam de nós, precisam do “eu”. E o simples facto de existirem e de precisarem de nós também é o fundamento da nossa felicidade. Não nos esqueçamos disso até ser tarde demais, até o “outro” deixar de existir, porque se perdeu dentro de si próprio numa solidão sem retorno.

Somos um todo: somos o “eu”, o “nós” e os “outros”. Somos a “Vida”, a “Terra” e somos até a “Morte”.

A vida não é o nosso umbigo e o Futuro é Hoje. Ame hoje. Partilhe hoje. Admire hoje a beleza infinita da Natureza. Ajude hoje. Proteja hoje.

Amanhã pode ser tarde demais.

AUTOR: Filomena Marta

Publicado em: 
11 Julho, 2014
Categoria: 
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