Forca, pudor, liberdade e cães atirados ao lixo

O nosso quotidiano noticioso tem sido rico em temas para dissertação, uns mais prementes outros dignos de discussão, alguns que nem deveriam fazer notícia. Deveríamos, talvez, estar já habituados ao (mau) jornalismo que tem grassado na nossa terra de há 10 anos a esta parte, à má política e piores políticos, a tristes reality shows que lançam para a ribalta figuras de muito duvidosa qualidade e que se tornam estrelas instantâneas. Mas alguns de nós não conseguem habituar-se a esta nebulosa realidade. Tem sido uma década horribilis.

Dez anos enfraqueceram o nosso país, os seus valores, a sua qualidade e até a sua liberdade de uma forma quase aflitiva. Expulsam-se os cérebros, encerram-se escolas, castigam-se classes (que até poderiam precisar de um “puxão de orelhas”, mas que acima de tudo precisam de orientação, retoma de ética e deontologia e não de castigos ad libitum, ao prazer dos caprichos de políticas mal amanhadas e pior alinhavadas) e vivem-se tempos de “pernas para o ar”. Estamos de pantanas, sim, esquecidos de boa governação, boas práticas e, acima de tudo, de bom senso.

Tenho recorrentemente o prazer de ler alguns comentadores de referência, uns jornalistas de velha guarda e inabalável qualidade, outros políticos de lucidez inusitada, outros gente de valor e consciência social e política que me fazem sentir menos só.

A Comissão da Carteira Profissional de Jornalista vs Jornal Público

Confesso que o Jornal Público merece o meu maior respeito e é sem dúvida uma publicação que muito admiro pela sua corajosa fidelidade à Língua Portuguesa. Num mundo da Comunicação Social vendido despudoradamente a um abjecto Acordo Ortográfico, o Público mantém-se fiel ao bom português. Só por isso, que mais não fosse, merece o meu aplauso e a minha deferência.

A Comissão da Carteira Profissional de Jornalista (doravante designada apenas por Comissão) ameaça o Jornal Público com elevadas multas caso publique artigos escritos por estagiários. Deveriam seguir-se a esta frase variados pontos de interrogação. Todos os jornalistas começam por ser estagiários. Eu fui estagiária e tinha uma carteira profissional que dizia precisamente isso: estagiária. Acho que ainda a tenho algures lá em casa, religiosamente guardada. A minha primeira Carteira Profissional de Jornalista, estagiária, pois claro. Nessa altura, como todos os estagiários, trabalhava e escrevia e publicava peças e artigos. Se a memória não me atraiçoa, creio que só não me era permitido assinar os artigos, ficando a responsabilidade do texto remetida para a Redacção. Mas é obviamente impossível, como o Público muito bem explana e defende, que um estagiário aprenda alguma coisa “se, durante o estágio, se limitar a fazer ‘exercícios’ que não visam a publicação”. Ora isto é um simples “exercício” de bom senso e uma verdade de La Palice, que estranhamente não se reflecte na posição da Comissão.

Houve um enorme erro cometido no nosso país na área da Comunicação Social e do Jornalismo: a criação de Cursos Superiores que desovam milhares de jovens para um mercado de trabalho restrito e que tem estado em queda acentuada. Também por esta desova irresponsável, note-se. A diminuição de qualidade nos Meios de Comunicação Social tem sido visível nesta década horribilis, muitas vezes até risível. A dada altura, trocaram-se bons nomes do jornalismo por meia dúzia de estagiários com a lógica de que podiam ter seis pessoas pelo preço de uma. Seis jovens inexperientes em troca de um bom profissional. São escolhas que se pagam, e o pagamento traduziu-se na quebra de qualidade jornalística. E a quebra de qualidade jornalística paga-se com quebra de audiências, que por sua vez se paga com quebra de investimento publicitário, num círculo de “pescadinha de rabo-na-boca”. É a microgestão no seu esplendor, mais brejeiramente conhecida como “a gestão do clip”. Aliás, um apanágio vulgar em muitas empresas nacionais, onde o factor humano é uma “chatice”, porque não é aquele que dá mais-valia à empresa, mas sim aquele a quem tem de se pagar ordenados. Que chatice! De tal forma “chatice”, que o efeito de “dumping” nos salários nos fez regredir não uma, mas pelo menos duas décadas. Não é normal que tenha hoje, comparativamente, menos retribuição e menos poder de compra do que tinha aos 25 anos. É a involução a substituir a evolução. E porquê? Porque é normal que uma pessoa com 20 anos de experiência seja mais cara do que um estagiário. Mas se é possível ter centenas de candidatos a estagiários a ganhar muito pouco, ou mesmo a trabalhar de graça, por que razões hão-de as empresas pagar a um bom e experiente profissional? A resposta é aparentemente simples, mas não flagrante para os empresários: porque isso valoriza e fortalece a empresa.

O pudor ou a falta dele

A falta de bom senso e a falta de qualidade, rigor e ética jornalística tem estado bem patente na cobertura que tem sido dada à morte do filho de Judite de Sousa. Este intertítulo é “roubado” a esse grande nome de Ferreira Fernandes e à sua crónica “Pudor, isso, pudor”, publicada hoje no Diário de Notícias (http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=4011827&seccao=Ferreira+Fernandes&tag=Opini?o+-+Em+Foco&utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed:+DN-Portugal+(DN+-+Portugal).

A quantidade de capas e de histórias que a morte de André Sousa Bessa tem dado, que a dor de Judite de Sousa tem dado, é quase ofensiva. Mais ofensiva ainda por não respeitar a vontade que a própria jornalista tão bem deixou expressa na mensagem lida pelo seu colega José Alberto Carvalho na hora da morte do filho. O aproveitamento da dor desta mulher e da tragédia que caiu sobre o seu filho e a sua vida é vergonhoso. Ser figura pública, por ser uma jornalista de televisão muito conhecida e influente, de inegável qualidade, não dá o direito a toda a imprensa tablóide e cor-de-rosa de se aproveitar deste momento negro para fazer capas e vender, confiante na sede de sangue e tragédia do seu público-alvo. É francamente um despudor, mas, ainda mais do que isso, uma enorme falta de respeito pela dor alheia. Já me custa ver, permanentemente, o rosto desfeito de Judite nas capas das revistas. Se mais não for, tenham piedade da dor desta mulher! Tenham compaixão!

A força da forca

Já muito bem disse Ricardo Araújo Pereira que a Bandeira Nacional não é para projectos artísticos, é para anúncios de cerveja, para fazer cachecóis e camisolas, para pintar na cara, para pendurar em cafés e nas antenas dos automóveis, para usar em alfinete na lapela de políticos, mas para fazer arte… isso jamais! É para pendurar ao contrário, é para queimar por adeptos de futebol, é para pisar por algum radicalista… mas nunca para fazer arte.

O jovem que pendurou a Bandeira Nacional numa forca como parte de um projecto artístico para a sua escola conhece hoje a sentença para “crime público de ultraje contra símbolos nacionais”. Mas está tudo maluco?! Faz-se gato-sapato da bandeira em tudo o que é sítio e em todas as ocasiões, e agora chama-se “crime” ao projecto deste estudante. Porquê? Além do mais, é porventura mentira que Portugal tenha estado na forca nos últimos anos…? Quererão parecer que somos um país muito patriótico? Um país onde o Hino Nacional toca e ninguém sequer pára ou faz silêncio…?! Pelo amor ao Cristo!

E a fraqueza da Força

Por cá vale mais ser ladrão do que polícia. Já bati na Força Policial quando devia bater, mas também me bato por ela quando a injustiça impera. O caso não podia ser mais simples: um ladrão leva o filho adolescente para um assalto, uma espécie de estágio, supomos, a polícia aparece, um agente dispara contra o carro do assaltante desconhecendo que estava um jovem lá dentro, o tiro altera a trajectória e por um grande azar atinge o jovem que está no carro. Maior azar, o jovem morre. Até aqui está tudo claro, a infeliz morte do rapaz é um dano colateral, fruto da banditagem de um pai.

Tudo claro? Não, tudo escuro, porque o ladrão pede indemnização, o polícia é suspenso, julgado, condenado, a sentença dita pena suspensa, obrigação de compensação monetária e o agente ainda enfrenta a probabilidade de expulsão da Força.

E o ladrão…? Esse está bem, muito obrigado. E melhor ficará com a indemnização. (Sim, é trágico, a dor de um pai, o filho morreu… mas por sua responsabilidade, ou será normal um pai levar um filho para um assalto..?)

Na impunidade dos maus

A maldade, por muito que nos custe, tem tendência para ficar impune em terra portuguesa. Não são só os ladrões e Cia. Limitada, também na violência contra os animais a impunidade impera. Várias ninhadas de gatos recém-nascidos têm sido retiradas de caixotes do lixo; o abandono de cães e gatos, sempre recorrente, vai atingir o seu auge nos meses das férias, em que se troca uma vida de companheirismo por uma quinzena de praia; uma besta-quadrada atirou um cão, açaimado, amarrado e com uma pedra atada numa corda, a um lago para que agonizasse num afogamento lento e macabro; e acabou de ser retirado de um contentor do lixo um cão de pequeno porte que, caso não tivesse ladrado e não tivesse encontrado quem se importa com o valor da vida, seja ela qual for, seria engolido por um camião e triturado vivo.

Tudo isto se passa cá, em Portugal. Tudo isto é recente, não são histórias de 1950.

O que acontece a esta gente? Nada. O homem que atirou o cão para o tétrico afogamento, na zona de Sintra, foi identificado e confessou o crime, mas nada está suposto acontecer-lhe. Quem atirou o cãozito pequeno para o lixo, ninguém sabe, mas mesmo que se soubesse nada iria também acontecer-lhe.

Enquanto os animais forem “coisas” nada acontece a quem os maltrata.

Era suposto o projecto-lei que criminaliza os maus tratos a animais de companhia ter sido discutido e votado na especialidade na passada quarta-feira, dia 3 de Julho, na Comissão Parlamentar de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias, na Assembleia da República. Houve duas ou três notícias a apontar este facto dois dias antes desta votação, depois disso houve silêncio na Comunicação Social. Ainda estou para saber se houve discussão e votação e o que resultou disso. A procura de informação, até agora, foi vã…

Chegará o dia em que a Liberdade que Sophia de Mello Breyner Andresen tanto acarinhava e acarinhou conquistará o seu lugar de Direito? Uma liberdade extensível a todos os seres vivos no seu direito a uma vida digna e sem dor, uma liberdade que assente na Justiça acima de más leis humanas, uma liberdade que nos liberte desta terrível e temível falta de honestidade, de razão, de bom senso e de compaixão? Tardará muito essa Liberdade? Oxalá não. Mas por que sou tão céptica…? Porque falamos do Homem, talvez…

Este é o Tião, o cãozinho que foi colocado dentro de um contentor do lixo, para morrer triturado. De porte pequeno, meigo, doce e inteligente, está agora à guarda da Associação Asaast, de Sto. Tirso. Precisa de gente séria e a sério, é rafeirinho, mas precisa de donos de raça (só nos cães é que os rafeiros são de confiança). Contactos para adopção: 91 947 84 65 + 91 834 41 86

AUTOR: Filomena Marta

Publicado em: 
7 Julho, 2014
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