Este Portugalzinho de amiguinhos e amigalhaços

Já foi muito mais difícil irritar-me do que hoje em dia. Fruto da idade, talvez, mas também fruto das mais variadas injustiças que tenho observado ao longo da vida. Há quem discorde da minha defesa do “factor sorte”, quem ache que o sucesso é feito de trabalho e engenho, mas nada pode ser mais falso do que isso, e tenho sentido na pele a injustiça. Pior, tenho sentido na pele o roubo descarado de ideias e já são três as ideias brilhantemente roubadas.

Este Portugalzinho de amiguinhos e amigalhaços

A primeira foi já há muitos anos, por uma “grande” escritora e poetisa da nossa praça, a quem ingenuamente apresentei a minha humilde obra poética, incluindo o início de um “romance em poesia”, a que dera por título “Maria Amada”. Dessa “grande” escritora e poetisa ouvi tudo o que não quis. Que não prestava, que devia dedicar-me a qualquer outra coisa que não fosse a escrita, que era poesia de sopeira e que tivesse vergonha na cara antes de mostrar os meus escritos a quem quer que fosse. Portanto, imaginem o meu espanto quando essa mesma “grande” escritora e poetisa apresenta o seu novo livro, no formato de um “longo poema”. Palmas, muitas palmas para a “grande” escritora e poetisa… e fiquei a pensar quantas mais vezes teria esta “grande” escritora e poetisa “roubado” ideias, ao mesmo tempo que enxovalhava um qualquer estudante ou aspirante a escritor/poeta.

A segunda ideia que ousei achar suficientemente boa para apresentação oficial teve direito a reunião na TVI. Dei-lhe por título “Hora J” e tratava de um programa dedicado aos jovens, não crianças, mas sim jovens adolescentes, cuja idade não merecia qualquer interesse por parte das televisões. Ou havia programas infantis ou programação normal, para os ditos adultos. Toda uma faixa jovem, que muito beneficiaria com um bom programa didáctico, de entretenimento e de informação dedicado à sua faixa etária, sofria um vazio nos Meios de Comunicação. Tal como hoje ainda vai sofrendo. Ora, esta reunião serviu para dizer que “a ideia seria interessante, mas não estavam de momento investidores num formato daqueles”. Qual não foi a surpresa (eu sou assim, surpreendo-me) quando vários meses depois surge na TVI um programa dedicado aos jovens.

A terceira ideia já não me apanhou tão desprevenida… ou assim pensei eu, na minha eterna ingenuidade. Tratei de registar o formato e o título no INPI e na Direcção Geral dos Direitos de Autor. A quem decidi apresentar a ideia, com direito a maquete a cores e tudo? À Impresa, casa onde trabalhei como também eterna freelancer, durante uns dez anos (comecei na ainda velhinha Abril Control Jornal). Precisamente: a empresa do Sr. Dr. Pinto Balsemão, a quem enviei também directamente a maquete por CTT registado e que nunca teve sequer a gentileza de uma resposta, detentora também da televisão SIC.

Esta terceira ideia tratava de algo que não existia em Portugal. De uma forma muito resumida, tratava-se de uma revista de grande informação sobre animais, o “Pet Courrier”, onde seriam tratados assuntos e notícias de crueldade animal, negligência, adopções, Associações de Protecção, Veterinária, animais de rua, etc., etc., etc. Este formato estava pensado para imprensa, televisão e plataforma de Internet.

Mais uma vez, ninguém teve interesse pelo projecto, que era caro fazer, que o mercado não estava bom, que havia crise… e mais uma vez qual não é o meu espanto quando a televisão SIC inicia um programa chamado “SOS Animal”. Foram contactados…? Pois, eu também não.

A César o que é de César… não parece ser algo que interesse muito em Portugal.

Depois venham dizer-me que temos de ser esforçados, inovadores, ter ideias e irmos para a frente! Não, meus amigos. Não tenham sorte, não, e até as ideias vos são roubadas, sem o mínimo dos pudores. Mas, desta vez, ainda estou a pensar… devagarinho, para não cansar os neurónios. Para já, estou dividida entre a minha Justiça… e os benefícios para os Direitos dos Animais. É uma causa que abraço, que defendo, que acarinho e a única que me leva a pensar devagarinho.

AUTOR: Filomena Marta

Publicado em: 
20 Janeiro, 2014
Categoria: 
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