Está tudo doido? Ou o “não-caso” de José Rodrigues dos Santos

Poderíamos chamar-lhe simplesmente excesso de zelo por parte de uma faixa de população que desatou em histeria a vergastar o jornalista e pivot José Rodrigues dos Santos, por um “não-erro” durante a apresentação de uma notícia. Mas o que realmente acontece é que temos um “não-caso” para o jornalista e talvez um caso de loucura colectiva nas redes sociais e de alguns comentadores de bancada.

José Rodrigues dos Santos

Quem me conhece sabe bem que não me escuso em zurzir nos jornalistas e Imprensa em geral quando acho merecido, dando-me a esse luxo por pertencer à mesma classe, embora agora (e espero que temporariamente) afastada das lides jornalísticas. É uma profissão de que me orgulho, independentemente de haver jornalista e Órgãos de Comunicação Social que não mereçam a profissão que representam.

Não é o caso de José Rodrigues dos Santos. Um jornalista inteligente e sério, cometeu um erro de associação que rapidamente explicou… mas como é hábito nas secções de comentários e nas redes sociais dizem-se muitas vezes diversas alarvidades sem sequer ler as notícias por inteiro. Lê-se o primeiro parágrafo e tiram-se conclusões (e vai daí a real importância de um lead* bem feito).

O que é grave é que esse caso de loucura chegou à própria Entidade Reguladora para a Comunicação Social, que parece que vai abrir um processo contra a RTP, depois das queixas recebidas por causa do “incidente”. Mas qual incidente? Mas está tudo doido?

José Rodrigues dos Santos foi claro na justificação que deu, e muito plausível para quem tem dois dedinhos de testa:

“Os repórteres apresentam-nos propostas de pivô em que eles explicam o que está na peça e depois nós, apresentadores, reescrevemos aquilo à nossa maneira. A proposta é a seguinte: há uma série de rostos novos no Parlamento, um é um deputado de 70 anos que é o mais velho, uma pensionista… E o que é que eu pensei? Que o deputado de 70 anos é uma pensionista. Não diz lá o nome.
Mas houve uma coisa que achei estranho, porque diz ‘o deputado’ e ‘a pensionista’; podia ter dito ‘a deputada’, mas eu fiquei ‘bom, se calhar usou o deputado como género neutro, e mantive deputado’. E quando o ‘Telejornal’ está no ar, entra uma promoção à peça.
Aí o texto é meu mas não sou eu que ponho as imagens. E na promoção puseram a imagem da pensionista, e eu digo ‘deputado de 70 anos’ e olho para a imagem e vejo que é uma mulher. E dizer que um deputado de 70 anos é uma pensionista até faz algum sentido. Não vi nenhuma anomalia ali”
.

Qual é a parte que não entenderam? Para quem lê, com olhos de ler, há dúvidas? Não, não há.

Mas como o senhor que todos consideraram visado e ultrajado é homossexual ficou tudo maluco com o politicamente correcto, achando que era um ataque à honra do senhor. Não, não é um ataque. Sim, foi apenas um erro induzido por uma imagem de uma senhora jubilada que agora é deputada. E sim também: quem está a enxovalhar o senhor, com tanta psicologia inversa e saindo tão extremadamente em defesa do que não precisa de ser defendido são realmente os mesmos que tanto berram para defender a sua honra.

Não sei… ou ando a irritar-me facilmente ou então anda tudo mesmo doido.

*”O Lead (ou, na forma aportuguesada, lide) é, em jornalismo, a primeira parte de uma notícia, geralmente posta em destaque relativo, que fornece ao leitor a informação básica sobre o tema e pretende prender-lhe o interesse. É uma expressão inglesa que significa "guia" ou "o que vem à frente".” (Wikipédia)

AUTOR: Filomena Marta

Publicado em: 
9 Outubro, 2015
Categoria: 
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Comentários

Retrato de Carlos Ricardo

Filó,

Muitas vezes, o alarido feito por alguns á volta de uma coisa insignificante e, até, imperceptível para a maioria (como foi o meu caso ao ouvir aquele telejornal) tornam, efectivamente como dizes - um "não-erro", numa estúpida discussão com a consequente perda de tempo e, principalmente, no desvio de atenções para o "desimportante" (!!!!)
Mais um artigo que me deu muito prazer ler e que ajudará (?) muita gente a ver o ridículo em que caíram.
Mas, também importante... não consigo esquecer-me do nosso café...Bjs