Era uma vez um povo...

Poderia dizer-se que era um povo bom, mas não era. Era um povo manso. Um povo que aguentava paulada, que gemia, que aqui e ali dizia um “ai”, mas pouco mais.

Há uma diferença entre a mansidão e a bondade. Porque a bondade pode até ser violenta. A bondade de defendermos alguém, de defendermos direitos universais, daqueles direitos que não nos atingem apenas a nós, tornando altruísta a nossa acção, ou reacção.

Depois, há alguns. Há alguns dentro de um povo manso que decidem ser guerreiros, provando que a mansidão não se limita a ser a regra. Mais fortes, sem dúvida. Porque o povo não é só manso, também é fraco. Mas para não fugir a outra regra, é fraco com os fortes.

Há uma tradição neste povo, uma tradição que emana de alto. Ser fraco com os fortes e forte com os fracos. É fácil. Não exige luta. No máximo, um passeio pela avenida.

Depois, surgem alguns. Vários alguns, até muitos alguns, que decidem unir-se e mostrar que conseguem chegar aonde querem, se quiserem. Mesmo que pelo meio encontrem outros irmãos de armas.

E imagina-se a cena de um filme, tensa, romanceada, de dois irmãos frente a frente:

- Não posso deixar-te passar, amigo.

- Pois é companheiro, mas sabes que eu tenho de passar. Por mim e por ti.

Apertam as mãos, encostam os ombros, ombro com ombro, num remendo de abraço. Depois confrontam-se. Deveres em conflito. Direitos clamados.

É verdade, também, que esses irmãos de armas se protegem, mais que não seja pela inércia. Porque se fosse o povo a galgar escadarias, muita cacetada seria pregada nos lombos.

Mas ainda assim há que sentir orgulho nesses alguns. Orgulho porque são eles que podem fazer a diferença. Se quiserem. Porque se não estiverem do lado de cá da barricada, estarão do lado de lá. E do lado de cá o povo é manso, também porque o povo é fraco… até ao dia em que já tiver muito pouco a perder e em que a fome dos filhos fale mais alto. Porque a nossa fome aguenta-se, a outra não.

E não sei porquê… parece até que se sentiu no ar o cheiro de Abril.

Mas se fosse Abril, seria ainda com cravos?

É que há cravos que não são flores…

 policiafoto2

policiafoto1

AUTOR: Filomena Marta

Publicado em: 
22 Novembro, 2013
Categoria: 
407 leituras