A divisão dos migrantes

Anda o Mundo inflamado por uma questão real e extremamente sensível: o tsunami de migrantes que todos os dias dão à costa da Europa. As emoções andam exacerbadas em redes sociais onde tudo e mais um par de botas se comenta, e até pessoas que considerava moderadas e com boa capacidade de raciocínio se entregam a defesas de uma ou outra posição, infelizmente com uma leveza que em nada condiz com esta dramática situação. Dramática para os que chegam em hordas à costa à custa tantas vezes da própria vida, dramática para os que os recebem, sem saber como hão-de recebê-los e o que lhes fazer. 

A divisão dos migrantes

Não são dez ou vinte, são muitos milhares quase diariamente, e creiam que para qualquer país, principalmente para os de porta de entrada, deve ser uma questão aterrorizante lidar repentinamente e organizar rapidamente o acolhimento e apoio de tantos milhares de almas. Muitas destas almas são ou estão conflituosas, por o serem simplesmente ou porque a angústia da situação assim as transforma.

Para já o processo inflamatório está a instalar-se nas sociedades ocidentais, com as naturais defesas que qualquer processo inflamatório despoleta. As posições radicalizam-se. Os inflamadamente contra, os igualmente inflamadamente a favor, muito poucos moderados e racionais pelo meio. Esperemos que entre estes moderados e racionais estejam os governos dos vários países que vão produzir a inserção e aglutinação, porque os povos já estão divididos.

Extraordinariamente, tenho ouvido/lido coisas de pessoas que, na minha humilde opinião, deveriam ser cuidadosas (não é politicamente correctas, atenção, porque isso também não sou), nomeadamente jornalistas e pessoas ligadas à política e a partidos, e que partilham opiniões alheias com comentários, este de um jornalista, “para partilhar com pessoas burras, desinformadas, xenófobas, preconceituosas, ignorantes, simplesmente parvas ou tudo junto”. O texto em causa glosa “10 razões para não acolhermos refugiados”, de um blogger que vê a sua assinatura agora amplamente difundida, talvez em breve o vejamos numa televisão “perto de si”, com sarcasmo e humor cáustico, basicamente chamando estúpidos a todos os que querem manter algum nível de racionalidade na forma como encaram tão sensível problema. Diz algumas coisas interessantes e com algum fundamento, mas para a minha sensibilidade é um texto que vandaliza a moderação e despotamente se apropria da “verdade” como sendo apenas sua, ignorando ou mesmo desprezando receios que possam legitimamente estar instalados no espírito de muitas pessoas, que não deixam de ser inteligentes por isso nem se tornam xenófobas também por isso.

É, resumidamente, um texto de “coitadinhos”, e tendo eu pena, comoção e compaixão por todas as pessoas que passam dificuldades e angústias, compreendendo a aflição que deve ser viver num país em guerra e ter de fugir, para preservar mas pondo em risco a própria vida, coisas há que me obrigam a pensar, a ponderar, a analisar e a usar a razão para poder chegar a um entendimento justo, não toldado por comiseração generalizada. Não entendo rapidamente, o que me leva a um exercício de reflexão, a quantidade de “fugitivos” mancebos em idade de lutar pela defesa da sua vida, da sua liberdade e do seu país, mas que têm capacidade para causar distúrbios, que os há, nos pontos de entrada para a sua tão almejada “segurança”. Estaremos a assistir apenas a um fluxo migratório desesperado… ou também a um fenómeno em massa de imigração ilegal? E porquê, ao fim de tantos anos de guerra, só agora este êxodo maciço, sabendo-se que as “passagens” alcançam os muitos milhares de euros por cabeça? Há desesperados, claro que os há… mas também o que se poderá esconder entre os desesperados? Que triagem é feita aos que arribam em busca de estatuto de refugiados, quem são, quais são os seus antecedentes, a quem está a Europa a abrir os braços?

Chamem-me “Velho do Restelo”. Mas sendo “refugiados” devem ter a atitude de refugiados, a humildade de refugiados, a abnegação de refugiados. O esforço aplicado aos países, cidades, localidades de entrada é brutal. A gestão de uma crise destas é extremamente difícil para quem está do lado dos que ajudam. Crucificam-se os que dão alimentos como podem, como a turba permite. Ovacionam-se os que agitam e recusam ajuda, porque se sentem maltratados?

Lembram-se ainda das Grandes Guerras, em que milhares formavam longas, em tamanho e em tempo, e ordeiras filas para conseguirem um magro quinhão de alimentos…?

A Europa está a mobilizar-se para responder a esta intensa e enorme crise. Não se ajudam muitos milhares de pessoas que entram de rompante de forma instantânea. O trabalho das forças que fazem as patrulhas e os resgates no mar tem sido brilhante e exemplar. O oceano é grande, as desgraças acontecem contra a vontade dos que cruzam os ares em busca de um ponto nas águas, um ponto carregado de almas que morrem. Tragédia. Uma imensa tragédia a perda de vidas. Também uma intensa dor e sentimento de impotência para quem encontra corpos já sem vida.

E se me comove ver o corpo de uma criança morta numa praia – só não comoverá quem não tiver coração – isso não me embota a capacidade de raciocinar e pensar na profunda alteração que as sociedades ocidentais podem estar a enfrentar com a chegada de muitos milhares de pessoas cuja cultura de tolerância e liberdade nada tem a ver com a do mundo ocidental, que há largas dezenas de anos luta pela igualdade de género e pela liberdade de expressão e de credo.

As mãos que ajudam são sempre poucas em comparação com o número dos que todos os dias chegam. Compreendam-lhes a dor, compreendam-lhes a miséria e o chegarem sem nada a um local que não conhecem, fugindo da morte, arriscando a vida. Mas não crucifiquem quem está a tentar ajudar, porque aqueles que crucificam são aqueles que apenas cravam os cravos, não são os que estão na linha da frente. Não são os que atiram pão a uma multidão em desordem, não são os que perante tantas mãos já nem sabem o que mais podem fazer e como fazê-lo.
Nem crucifiquem as pessoas que podem ter medo da invasão de uma cultura que nada tem a ver com a cultura ocidental, vindos de regiões intolerantes, sem Direitos Humanos, sem respeito pelo género, pela diversidade, pela liberdade, por todos os valores por que a Europa se bate há muitas dezenas de anos por conseguir e implementar. O choque cultural, de princípios e de condescendência existe e é natural que exista. O medo também pode existir. O exemplo islâmico na Europa não tem sido o melhor, sendo os europeus a condescender e não o contrário. Isto é História. E é a realidade para muitas pessoas que vivem de perto esta História.

Também sou solidária e compassiva, mas quando as emoções se exacerbam o resultado e a nossa lucidez podem realmente ficar comprometidos. Este é um drama que é muito mais sério do que a leveza do ser a favor ou contra. As implicações futuras geodemográficas, geopolíticas, culturais e sociais são sérias e não devem ser tratadas nem comentadas com leveza. Sejamos moderados. Sejamos lúcidos. A emoção é inimiga da razão.

Há bons e maus em todos os lados, em todos os países, em todas as culturas. Não se assuma que todos os que chegam são maus. Não se assuma que todos os que chegam são bons.

Sejam bem-vindos os que vierem por bem, os que vierem em paz.

O resto, só o futuro dirá…

AUTOR: Filomena Marta

Publicado em: 
11 Setembro, 2015
Categoria: 
913 leituras

Comentários

Muito bom, Filomena. Comundo desta sua opinião.

Bem-haja.