Desilusão

Estou triste. Ontem, Domingo, tive uma desilusão inesperada. Um homem que respeito e admiro, que escutava religiosamente, chocou-me ao ponto de não continuar a assistir ao seu comentário e mudar de canal. Não esperava o que escutei. Tinha-o por homem lúcido e civilizado. Mas de repente ouvi sair da sua boca uma frase que já tinha escutado a alguém que me merece menos respeito, e isso chocou-me. Que aquele homem se pudesse assemelhar a outro. A frase usou uma palavra mais elegante, onde o outro usou “asqueroso” este usou “hediondo”, mas manteve a profunda arrogância da opinião.

Um homem que eu admirava disse que “o ser humano mais hediondo vale mais do que qualquer animal”. Não achei possível, mas depois lembrei-me do que se aprende logo no primeiro ano da Faculdade de Direito:

- O que é mais importante, o Direito ou a Justiça?

- A Justiça, porque um Direito sem Justiça é um Direito injusto.

- Espero que mantenha sempre esse conceito, mas não é assim. A Lei aplica-se mesmo que seja injusta.

Esta foi uma das razões por que abandonei Direito. Trinta anos depois mantenho esse conceito e adquiri outros, porque a vida de nada nos serve se não for para evoluirmos e melhorarmos. Nesses outros conceitos inclui-se um enorme respeito pela vida, por toda a vida, mas não um respeito cego nem um respeito elitista. O Homem não é o centro do Universo, nem todos os Homens são bons, os Homens maus não merecem respeito, os seres “asquerosos” ou mais elegantemente “hediondos” não merecem sequer o ar que respiram.

Dizer que um homem que viola um bebé humano ou uma galinha é melhor do que um cão é ofender profundamente uma faixa de humanidade inteligente e civilizada. O cão, infelizmente, não se ofende e é até capaz de lamber as mãos de quem pensa assim. Antes se ofendesse e ferrasse uma valente dentada por tão ofensiva comparação. Ofensiva para o cão.

É obviamente provável que o racismo subsista, que até haja quem gostasse de ver reinstituída a escravatura, que exista quem admire o Holocausto e quem ache que se deveria voltar a queimar bruxas na fogueira. São estes seres humanos que os dois comentadores, de diferentes requintes, consideram melhores do que um animal dito irracional. É que quando falam deles “animais”, esquecem-se que o Homem também é um animal, bípede, da classe dos mamíferos.

De uma espécie que usa a lapidação como castigo, que mutila e tortura os seus iguais, não é de admirar que exista esse novo género de racismo: o especismo. Julgam o Homem como Ser Superior e que todas as outras espécies do Planeta existem para o servir e servir os seus caprichos. Para “criaturas” como estas, os animais (ditos irracionais) são apenas comida, são carne para consumo, são diversão, na tortura dos circos e touradas e lutas de cães ou galos, são luxo e são, para aqueles que gostam de instigar cães a lutar entre si e a ser agressivos, um prolongamento de um pénis minúsculo.

É por gente desta que se continua a dizimar animais indefesos. É por gente desta que se lançam animais para a extinção. É por gente desta que se continua a matar e a torturar animais por ganância. Mas não é só isto, infelizmente. É por gente desta que há povos a morrer de fome, gente, seus iguais. Porque gente desta só tem opiniões. Gente desta não estende a mão sequer para ajudar o seu semelhante. Mas num país de 10 milhões de habitantes em que apenas cerca de 20 mil fazem trabalho humanitário, o que se poderia esperar?

O pior… é que se esquecem que têm tempo de antena. Que mais não fosse, é obrigação deles ser moderados nas suas opiniões, pois a sua voz chega a milhares de pessoas, umas mais influenciáveis do que outras. Só essa falta de cuidado, de inteligência, já é admirável. Seja qual for o requinte das palavras usadas. Mesmo que se mude a forma, o conteúdo permanece.

AUTOR: Filomena Marta

Publicado em: 
14 Janeiro, 2013
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