Crónica de uma gata emparedada

É sobejamente sabido que se há coisa que não sou é “politicamente correcta”. Gosto pouco de usar “paninhos quentes”, mas gosto também de ser justa. Critico o que está mal, louvo o que de bem se faz.

Crónica de uma gata emparedada

Eram 8h30, manhã de uma segunda-feira, meio do mês deste Setembro que se vê cinzento. O meu telemóvel toca e vejo ser uma amiga, que como eu é Protectora Particular de Animais (PPA). Quando uma amiga destas telefona tão cedo adivinhamos problemas.

Há já algum tempo uma gata abandonada, meiga, não aparecia em lado algum, e a preocupação aumentava. Como sempre, recolher animais abandonados, meigos e dóceis, é uma prioridade que dificilmente conseguimos cumprir por falta de capacidade logística. Não se fala sequer na capacidade financeira, pois os PPAs não têm qualquer estatuto reconhecido, dependem integralmente do seu ordenado ao fim do mês para pagar alimentação e cuidados de animais recolhidos e pagar despesas de veterinário com animais doentes e esterilizações. Apenas mais uma falha num sistema nacional e local no que toca a protecção animal. Um PPA faz o que pode, como pode e quando pode, sem capacidade logística nem apoios financeiros e oficiais. Por isso, esta gata ainda não tinha sido recolhida e colocada em segurança, sendo diariamente alimentada e monitorizada.

Do outro lado da linha a minha amiga contou-me em aflição que tinha localizado a gata desaparecida: chamou-a tarde na noite, em mais uma tentativa de a encontrar, e no silêncio ouviu-a miar… por trás de uma parede de betão. A zona tem estado a sofrer obras de fundo, para construção de rotundas e radiais. Uma situação que em muito sobressaltou os animais da zona, pela movimentação de máquinas e homens e pelo barulho intenso. Acontece que nessas obras aconteceu o encerramento de um vão por baixo de umas escadas, totalmente tapado com uma parede de betão. Esta obra tinha mais de uma semana, o tempo em que a gata já estava fechada sem água nem comida. Às seis da manhã voltou ao local, chamou novamente e de novo os miados…
No telefonema decidimos que a minha amiga iria falar directamente com o responsável das obras no local, e decidimos também que iria ser dito que a gata era dela, pois receamos sempre a atitude oficial perante animais abandonados. Infelizmente, é habitual muita gente considerar que “é só um gato”, desvalorizando uma vida, tornando-se pior quando é um animal sem dono. Mesmo assim as coisas tiveram um mau começo.

O responsável pela obra, um engenheiro muito jovem, demonstrou-se pouco acessível e sensível à situação. A sua preocupação principal era ter de abrir um buraco na parede. Combinou que iria ver o que podia fazer e que até às 15h00 entraria em contacto com a minha amiga. Eram cerca das 9h00 da manhã. Um trabalhador, também ele dono de alguns gatos e de sensibilidade diferente, ofereceu a sua solidariedade, mas sem nada poder fazer para ajudar. Recordo que nesta altura se falava numa gata que foi referida como tendo dono e que estava emparedada.
O tempo passou… toda a manhã e toda a hora de almoço. Pelas 15h15 recebo novo telefonema. Nada de engenheiro, nada de soluções, a gata tinha de sair dali naquele mesmo dia, era hora de avançar para as redes sociais. Assim foi feito. E repentinamente o rastilho acendeu-se, as partilhas multiplicaram-se e a intervenção de Nuno Markl e de Fernando Lima Fernandes gerou comoção generalizada. Na foto, apenas a parede de betão que fechava o vão por baixo das escadas.

As redes sociais têm tanto de bom como de mau, é certo… o lado bom é a agitação social que provoca, a sensibilização, a pressão para que haja actuação e soluções, o envolvimento activo de inúmeras pessoas que agem, que telefonam, que questionam os responsáveis por dado problema. O lado mau, é muitas vezes as leituras rápidas e enviesadas dos apelos, que conduzem à partilha de informações erradas, e quem conta um conto, acrescenta um ponto. Foi assim que voltei a receber novo telefonema: o engenheiro já estava preocupado porque nesta movimentação já estava a ser apontado como sabendo do caso da gata há 10 dias sem nada fazer, quando a informação passada era a de que sabia do caso desde as 10 da manhã. Mas agora já havia preocupação. Agora já todos estavam despertos. O Veterinário Municipal já tinha sido alertado, já estava a caminho. O director da Cascais Próxima já avançara com as autorizações para chamar máquinas e pessoal para se abrir um buraco na parede. Da presidência da Câmara, onde entretanto chegou o impacto do alerta no Facebook, já havia intervenção e o presidente questionava o que estava a acontecer e o que estava a ser feito.

De repente, o pequeno buraco já não chegava, já era preciso um maior, já era preciso ir lá dentro e ver como estava a gata, já era preciso a Protecção Civil. De repente, a actuação tornou-se exemplar e um motivo de orgulho para quem assistisse aos esforços que estavam a ser feitos, ao cuidado e à preocupação.

Cerca das 19h00 uma PPA e um funcionário da Câmara entraram finalmente, a custo, no vão pelo buraco aberto, posta uma armadilha nessa entrada. Pelo que me contaram, dava gosto ver a operação montada. Foi inclusive usada uma câmara para verificar o interior e ver se era possível localizar o sítio onde a gata pudesse estar, não se sabendo se estava bem ou já prostrada. Tinham passado nove dias desde o dia em que fora erguida a parede.

A gata foi finalmente salva. Tentou obviamente fugir, em pânico, entrando directamente na armadilha colocada na abertura da parede. Agora era preciso esperar para a levar para a clínica veterinária, que já estava avisada. O Veterinário Municipal tinha pedido expressamente que o avisassem quando a gata fosse resgatada, pois queria ir ver como estava. E a gata estava, aparentemente, surpreendentemente bem, dadas as circunstâncias, a provação e o pânico em que se encontrava.

Passou a noite a tranquilizar na Clínica, hoje será observada e serão feitas análises para verificar se não houve danos no fígado. Quando um gato está muito tempo sem comer ocorre frequentemente uma patologia chamada lipidose hepática, que é uma concentração elevada de gordura no fígado (desencadeada por jejum prolongado, por falta de alimentação por mais de três dias, que leva à quebra de gorduras no organismo e uma deficiência de saída de gordura do fígado, ficando a sua função reduzida e comprometida). Há, também, o problema da desidratação. Esperemos pelo melhor.

Neste final para já feliz, faltam os agradecimentos e os louvores:

  • Às PPAs envolvidas, que jamais recusariam desistir enquanto a gata não estivesse a salvo.
  • Ao Veterinário Municipal, Carlos Morbey, de uma disponibilidade, cuidado e acessibilidade admiráveis.
  • A todos os trabalhadores que fizeram com que este salvamento fosse possível.
  • Ao engenheiro responsável, Nuno Almeida, que corrigiu totalmente a sua actuação e fez todos os possíveis para o bom desfecho deste acidente.
  • Ao director da Cascais Próxima, que emitiu todas as autorizações e teve a gentileza de passar no local, com a sua própria família, para se certificar de que tudo estava bem.
  • Aos Bombeiros e Protecção Civil envolvidos.
  • Ao Presidente da Câmara de Cascais, Carlos Carreiras, que desde que tomou conhecimento do caso esteve permanentemente alerta e interessado, fazendo reportar a si próprio as últimas informações sobre o desfecho desta situação.
  • À clínica da Dra. Carla Guerra, que esperou pela gatinha, sendo esta médica veterinária um precioso apoio para os PPAs envolvidos, onde me incluo.
  • Aos amigos, e amigos dos amigos, cibernautas utilizadores do Facebook que rapidamente deram voz à urgência do resgate deste pequeno e indefeso animal.

Porque todas as vidas são importantes!

E em homenagem ao presidente e à veterinária, ambos partilhando um nome próprio, está desde já proposto que esta resistente pequena sobrevivente passe a chamar-se “Carlinha”.

All is well, that ends well…
 

P.S.: Obviamente que a "Carlinha" não voltará a conhecer as agruras da rua...!

AUTOR: Filomena Marta

Publicado em: 
15 Setembro, 2015
Categoria: 
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