Conversas de gato

Geralmente os gatos comunicam silenciosamente entre si, apenas por contacto visual e linguagem corporal. Os sons usados entre eles são normalmente de aviso, como o silvo (conhecido por “bufar”) e o rosnado, um som de intensidade baixa e ameaçador, e o grito, usado por medo, dor ou para intimidar um adversário, geralmente ouvido em lutas entre gatos. A vocalização dos gatos inclui o lamento, usado também durante o cio como chamamento para o acasalamento. A maior parte deste tipo de comunicação é observado sobretudo em gatos de rua, confrontados com invasão de território ou em disputas por fêmeas. O miado propriamente dito é observado em dois tipos de situações: pelas crias como chamamento para a mãe, ou com os seres humanos.

Conversas de gato

Esta relação de miados com o ser humano é única. É o verdadeiro estabelecimento de uma comunicação verbal. Considera-se que os gatos aprenderam que a linguagem corporal não chega para que os humanos os entendam e compreenderam que há resposta humana às suas vocalizações. É uma adaptação evolutiva que permite aos gatos viverem em maior harmonia com os humanos, de quem dependem há milhares de anos. Surpreendentemente, desenvolveram diversos tipos de miados consoante as necessidades que querem ver atendidas. O miado de pedir comida, de mimo, de pedir festas ou atenção, de pedir para sair ou entrar em algum sítio, por exemplo. Aprender a comunicar eficazmente as suas necessidades é, sem dúvida, uma vantagem para os pequenos felinos. No entanto, esta faceta, se em tempos não era inata e foi desenvolvida, hoje já nasce com os gatos. É normal o gato bebé comunicar com o ser humano através de miados, para pedir atenção e comida. Mesmo gatos de rua estabelecem uma relação de miados com os seus tratadores.

 miau_2

Tudo isto aponta para a inteligência desenvolvida dos gatos (e dos cães), para a sua capacidade de estabelecer comunicação e laços afectivos, mas mais ainda, de perceber as situações e as interacções. Esta capacidade é prenunciadora da existência de uma inteligência abstracta, ou seja, capaz de entender emoções e planos extra-materiais. Um gato entende a subtileza de alteração de humor do seu dono.

A intensidade de comunicação também depende da personalidade do gato e até da raça. Numa casa com dois gatos, um pode ser muito falador e o outro mais silencioso. Há raças que vocalizam muito, como o Siamês, o Abissínio e o Burmês. Entre os mais reservados encontramos o Ragdoll, o Persa e o doméstico de pêlo curto, seja Europeu Comum ou Americano. Um facto interessante: não há gatos rafeiros. Todos os gatos têm raça, sendo a mais vulgar a do Europeu Comum e o Americano Comum, os gatos que geralmente são chamados gatos de rua. E mesmo dentro destas raças há diversas variantes, como os tigrados, os tabby, as tartaruga ou tricolores (sempre fêmeas), os pretos e os pretos e brancos, para mencionar algumas. Mas se analisarmos bem, também não há cães rafeiros, há, isso sim, cães com vários cruzamentos de raças distintas. Aquele “rafeiro” que anda abandonado pela rua, pode bem ser uma raça própria, um “Pastor-Husky-Collie-Terrier”, por exemplo.

Mas a interacção vocal com o ser humano também depende do tipo de personalidade fundamental do gato, se é mais introvertido, extrovertido, tímido ou amigável. Os gatos mais activos tendem a ser mais faladores do que os solitários. Por outro lado, também se defende que quanto mais um dono fala com o seu gato, mais o gato aprende a responder, podendo gerar-se uma verdadeira “conversa”.

miau_4

O maior problema para o gato é o facto de os humanos não falarem “gatês”. Assim sendo, tiveram de ser eles a adaptar-se, “ensinando” aos humanos o que significa cada tipo de miado.

Especialistas em comportamento animal identificaram dezasseis padrões diferentes de vocalização felina. Entre estes sons inclui-se o silvo e o rosnar, palrar (uma espécie de chilrear), trinado, ronronar e miado. Mais recentemente, pesquisadores ingleses definiram que além de todos os sons identificados existe também um chamamento especial, um “ronronado de pedido”, que é uma mistura de miado com ronronar, usado para pedir alguma guloseima ou um carinho específico.

Os gatos aprendem facilmente expressões simples, como “brincar”, “biscoito” ou “latinha” e o seu próprio nome. Muitas vezes podem não responder à palavra em si, mas sim à entoação e tonalidade de voz usada pelo dono ou protector, também em associação com a acção consecutiva: carinho ou alimento. Depois de identificarem dada palavra associada a determinada acção, a simples palavra é suficiente para despoletar a atitude do gato. Isso quer dizer que o gato tem capacidade de aprendizagem. É por isso que aprende a identificar o seu próprio nome.

A nossa tendência para falar com os animais de estimação é a mesma que temos ao falar com bebés humanos. Geralmente usamos um timbre de voz meigo, de frequência mais elevada (usada tanto por humanos como por gatos para indicar afecto e amizade), com palavras simples, sílabas repetitivas e com intensa expressão facial. A resposta dos animais a esta comunicação também é semelhante à dos bebés humanos para aprenderem a falar: ouvindo e tentando imitar.

 miau_6

Na realidade, os gatos “treinam-nos” para compreendermos a maneira como eles falam, e identificamos cada miado diferente e aprendemos a saber o que significam. Tal como os gatos bebés miam para chamar a atenção da mãe e pedir para comerem, também reconhecem em nós uma figura maternal e pedem-nos alimento, carinho, ou mostram que estão zangados ou desconfortáveis. Os bebés gatos que mais vocalizam são os que têm melhores possibilidades de serem atendidos pela sua mãe, e os gatos domésticos vivem numa eterna infância, mantendo essa vocalização infantil e olhando para nós como uma mãe. Também por isso os gatos têm tendência para “amassar-nos” com as patas para demonstrar que nos amam e confiam em nós, o mesmo movimento que usam com a mãe enquanto bebés para amassar a barriga e estimular a produção de leite.

Quanto ao ronronar, é uma forma de dizerem que estão felizes e que tudo está bem. Ah, pois é… também há vários ronronares, mas isso é uma história que pode ler aqui:

http://www.refugiodabicharada.com/index.php?option=com_content&view=article&id=322:o-ronronar&catid=1:noticias-recentes&Itemid=103

AUTOR: Filomena Marta

Publicado em: 
29 Novembro, 2013
Categoria: 
859 leituras