A compaixão aprende-se

Desejarmos bem aos outros, sermos bondosos, ser generoso, ser altruísta, ser humano, ter compaixão, tudo isto são coisas que se aprendem. Podemos, realmente, tornar-nos melhores Seres Humanos. Só temos de querer.

A compaixão aprende-se

Claro que tudo isto começa na educação. Filhos de pais humanos, generosos e compassivos têm maiores probabilidades de se tornarem bons humanos também. Treinar uma criança a ser bondosa irá dar ao mundo mais uma semente de mudança. Mas a educação não é tudo e cada um de nós pode treinar-se, mesmo depois de adulto, mesmo depois dos 50 anos, a ser melhor. É uma escolha. Ser bom ou ser mau, é uma escolha.

Podemos ter nascido e crescido num lar onde a generosidade, o respeito pelos outros, pelos animais e pela Natureza não faz parte dos nossos progenitores, mas mesmo assim podemos a qualquer altura da vida e em qualquer idade decidir que é nessa direcção que queremos seguir. Queremos ser melhores.

Isto é uma das coisas que nos distingue dos outros animais: a capacidade de escolher, de decidir, de mudar, de evoluir. Podemos treinar o nosso cérebro e os nossos pensamentos.

Ser bom não é ser bonzinho. Não é ser submisso e com desejos de agradar a toda a gente. Ser bom é ser bondoso, desejar o bem dos outros e é saber que os que são mais frágeis devem ser protegidos. Sejam crianças, adultos em dificuldades ou animais.

A bondade e a compaixão não são selectivas. Quem é bondoso e compassivo é-o em relação a todos os seres do planeta, humanos ou não. Um ser que sofre, seja qual for a sua espécie, desperta em nós a compaixão.

Isto é outra das coisas que nos distingue dos outros animais: a compaixão. Um leão é um leão e será sempre um leão. Não tem a capacidade de se treinar, não se compadece com a morte da sua presa, nem tem possibilidades de sentir empatia por ela e compadecer-se. Um ser humano, mesmo tendo aprendido a comer carne durante toda a vida, pode despertar para a empatia para com os outros animais e deixar de comer carne, tornar-se vegetariano. Podemos atingir essa empatia aos 20, 30 ou 70 anos. Depende da nossa escolha e do nosso treino na direcção da empatia e da compaixão.

A empatia, resumidamente, é a capacidade de compreendermos o outro, a posição do outro, o que o outro experiencia, sente e sofre. E isto é outra das coisas que nos distingue dos outros animais. A capacidade de sentir empatia, de nos colocarmos na situação do outro, de sofrermos com o outro.

A visão simplista do antropocentrismo ainda inquina muita gente. No entanto, esta visão que considera o Homem o centro de tudo e superior a todos os seres da Terra, pode ser compreendida também numa vertente compassiva e empática. Pode, não, deve ser compreendida numa vertente compassiva e empática. Não se retire o prazer que uma faixa dos humanos sente por se considerarem superiores, mas devem compreender que essa superioridade implica deveres. Estes deveres são de empatia e compaixão pelos que são “inferiores”. Os seres “inferiores” são mais frágeis e desprotegidos. É dever dos seres “superiores” defendê-los e protegê-los. Porque, naturalmente, os seres “superiores” são mais aptos, mais inteligentes e mais fortes.

Os seres “superiores”, os defensores do antropocentrismo, também podem treinar-se para serem mais humanos, terem mais compaixão e bondade. Aliás, estes seres “superiores” terão mesmo muito mais facilidade em treinar-se no sentido da humanidade, generosidade e altruísmo do que os seres “inferiores”, incluindo alguns seres humanos que possam estar colocados nessa fasquia de “inferioridade”, como as crianças, os velhos, os deficientes, mas também os pobres, financeiros e de espírito. Afinal, são “superiores”…

Nem todos evoluem da mesma forma e com a mesma rapidez. Por isso, numa mesma sociedade encontramos seres cuja vida se limita a dormir, acordar, ter filhos trabalhar e eventualmente divertir-se, e seres espiritualmente evoluídos, com um nível de civilização elevado, o que naturalmente os conduz para uma visão do Mundo mais elaborada, mais abrangente, mais empática e mais compassiva. São pessoas que se afastam tanto do conceito limitado do antropocentrismo, como das limitações de seres humanos de inteligência mais circunscrita e de menor percepção do mundo e da civilização.

Tanto uns como outros, os antropocêntricos e os limitados, não conseguiram ainda atingir o patamar de um conhecimento básico, mas imprescindível para a evolução pessoal e colectiva: a fome mata todos, não apenas os humanos.

a_fome_mata_todos_compose

A base científica

Ao contrário do que é comum pensar-se, que a compaixão e a bondade são atributos inatos que nem todas as pessoas possuem, estudos demonstram que afinal se trata de comportamentos aprendidos e adquiridos, sendo que são qualidades que podem ser desenvolvidas e trabalhadas para se criar um mundo mais empático e bondoso.

Abigail Geer é o nome que assina o artigo que revela um destes estudos, levado a cabo na Universidade de Wisconsin-Madison. A bondade pode ser cultivada, referindo os pesquisadores que através da meditação compassiva as emoções positivas como a bondade podem ser aprendidas, da mesma forma que se aprende a tocar um instrumento musical ou como nos treinamos para ser um atleta de excelência.

Richard Davidson foi o responsável pelo estudo, o primeiro a usar a tecnologia de ressonância magnética funcional, usada para medir a actividade do cérebro, para identificar exactamente como os nossos sistemas cerebrais directamente envolvidos com a empatia são afectados quando praticamos uma geração voluntária de compaixão. Ou seja, quando queremos ser bondosos e empáticos.

A compaixão não é o mesmo que empatia, mas leva também à empatia. A compaixão pressupõe o desejo, a vontade de minorar ou aliviar o sofrimento de outro ser senciente, ou seja, de outro ser que tenha a capacidade de sentir dor e sofrimento. Isso significa que a nossa capacidade de ter compaixão não se circunscreve aos seres humanos, mas sim a todos os animais que possuem sistema nervoso central e consciência do meio que os rodeia, ou seja, que são sencientes. Está já cientificamente provado que todos os mamíferos e as aves possuem senciência: sentem fome, frio, dor, medo, angústia, alegria, felicidade, criam laços afectivos e têm consciência do facto de terem a sua vida ameaçada. A compaixão leva a que se demonstre ou queira demonstrar uma gentileza especial com aqueles que sofrem, seja física ou psicologicamente.

Os pesquisadores trabalharam primeiro com um grupo de 16 monges tibetanos experientes na arte de meditação baseada na compaixão. Depois, escolheram 16 participantes da mesma faixa etária, sem qualquer treino anterior, e ensinaram-lhes os fundamentos desta arte em apenas duas semanas, pedindo-lhes primeiro que se focalizassem nas pessoas que amavam, desejando-lhes bem-estar e ausência de sofrimento. Depois disto, pediram a este mesmo grupo que gerassem os mesmos sentimentos sem pensar em ninguém específico.

Os 32 sujeitos do estudo, os monges e o grupo sem treino, foram examinados por ressonância magnética e expostos a uma série de vocalizações positivas e negativas. Os resultados do exame mostraram que os experientes em meditação tiveram uma actividade cerebral significativa ao nível da ínsula, a parte do cérebro que lida com as representações físicas das emoções, bem como a área que processa a empatia através da percepção do estado emocional e mental de outras pessoas. Estes resultados apoiaram as crenças de Davidson, o autor do estudo, de que “as pessoas não estão presas aos seus respectivos pontos de vista” e de que podemos treinar-nos para sermos mais gentis e compassivos, indo de encontro ao resultado de outros estudos que referem o mesmo resultado: o de que podemos tornar-nos mais bondosos e gentis se praticarmos activamente um estado de espírito compassivo.

O resultado a longo prazo desta evolução será, sem dúvida, um mundo com mais harmonia, bondade, compaixão e humanidade.

compaixao_aprende_se_compose_mini

indiferenca_mata_compose_mini

 

Real_men_are_kind_to_animals

Os verdadeiros homens são gentis com os animais.

 para_que_os_maus_prevaleam1_mini

 

Só não é melhor

quem não quer.

AUTOR: Filomena Marta

Publicado em: 
1 Novembro, 2013
Categoria: 
487 leituras