Carta aberta a Miguel Sousa Tavares

Carta aberta a Miguel Sousa Tavares

Carta Aberta a Miguel Sousa Tavares

por Filomena Marta

 

Exmo Senhor Dr. Miguel Sousa Tavares

Palavras suas: “(…) até ver, um homem não tem necessariamente de ser um burro. Mas alguns tentam (..)” ... e devo eu dizer que conseguem mesmo!

Aqui “o problema” não é “quando conseguem”, porque está provado que conseguem, sem desprimor para as dóceis criaturas, que valem mais do que muitos doutores.

Escreveu Vossa Excelência mais uma crónica que prova muitas coisas. Gostaria de poder dizer-lho pessoalmente, cara a cara, albarda contra capa, porque me apraz mais um bom burro do que um mau doutor. Portanto, antes de iniciar qualquer consideração deixo-lhe de imediato o repto: aceite um debate.

Pare de se esconder no comentário solitário, sem contraponto e apenas anuência de um pivot, pare de escrever solilóquios no conforto da sua cadeira, onde podemos dizer tudo o que nos passa pela fraca cabeça, certos que estamos de que o nosso “estatuto” pressupõe a publicação ad hoc. Faça-se um homem e aceite o confronto com pessoas que consideram o “estatuto” dos animais mais importante do que o seu “estatuto” de “comentador”.

Os problemas “fracturantes” que tanto o incomodam são problemas sociais importantes, claro que não com a “importância” da tourada e da caça, esses ex-libris da cultura humana, porque seria impensável colocar a questão da eutanásia ao seu nível. Diz Vossa Excelência na sua (como chamar-lhe…?) crónica de 14 de Maio passado, que “depois, e como causas destas já vão escasseando” - (que fiquem sabendo as parvas das pessoas que as causas humanas e sociais importantes vão escasseando!) – “os direitos dos animais. É nisso que eles [os políticos e legisladores] estão agora e o espectáculo é deprimente, como seria de prever quando os homens, querendo elevar os animais à condição humana, outro caminho não encontram do que reduzirem-se eles à condição irracional”.

Estará Vossa Excelência por certo a retratar-se, e confesso que foi extremamente bem-sucedido nesse retrato. Outra coisa não seria de esperar de um escritor famoso e filho de uma das maiores poetisas nacionais. Por isso, não duvidemos que é Vossa Excelência maior homem do que Lincoln, para quem não interessava “nenhuma religião cujos princípios não melhoram nem tomam em consideração as condições dos animais”, mas é também maior do que Da Vinci, que disse “virá o dia em que a matança de um animal será considerada crime tanto quanto o assassinato de um homem”, ou mesmo Ghandi que referiu que “a grandeza de uma nação e o seu progresso moral podem ser avaliados pelo modo como os seus animais são tratados”.

Vossa Excelência, Sr. Dr. Miguel Sousa Tavares, é, sem sombra de dúvida, mais importante do que Schopenhauer, que considerava que “a compaixão pelos animais está intimamente ligada à bondade de carácter e pode ser seguramente afirmado que quem é cruel com os animais não pode ser um bom homem”. Haverá maior crueldade do que a de um homem que remete os animais para a insignificância das “coisas”, negando-lhes o direito a fazerem parte dos “seres vivos”?

Poderá Vossa Excelência ter a humildade de aprender com um Prémio Nobel da Paz? Ou é Vossa Excelência também maior do que Albert Schwweitzer que disse “quando o homem aprender a respeitar até o menor ser da criação, seja animal ou vegetal, ninguém precisará de o ensinar a amar o seu semelhante”? Não, não é. Pois quem é maior não considera também fracturantes as questões humanas e sociais, como a eutanásia, e também os direitos de gays (por que não? Seremos homofóbicos por sinal?) e o estatuto dos animais (sim, sem aspas!). Creio que ainda ninguém lhe disse, Sr. Dr. Sousa Tavares, mas os animais “também” são seres vivos. Já reparou que os touros escorrem sangue, e que esse sangue é vermelho como o seu e o de todos os seres humanos? Não é verde, nem amarelo, é vermelho. Saberá Vossa Excelência que um animal, para além de sangrar, sente dor como os homens e que como os homens morre?

Terá porventura Vossa Excelência vergonha de dizer que o “destino dos animais é mais importante do que o medo de parecer ridículo” como afirmado pelo grande Emile Zola? Ou também é Vossa Excelência maior e mais importante do que ele?

Sabe quem foi Pitágoras, Sr. Doutor? Sabe que nos seus tempos idos, muito antes deste século XXI em que Vossa Excelência habita, já dizia que “enquanto o homem continuar a ser destruidor impiedoso dos seres animados dos planos inferiores não conhecerá a saúde nem a paz. Enquanto os homens massacrarem os animais, eles se matarão uns aos outros. Aquele que semeia a morte e o sofrimento não pode colher a alegria e o amor”? E que referia sem vergonha ou medo que “os animais dividem connosco o privilégio de terem uma alma”?

A si, Sr. Doutor, digo-lhe o mesmo que Victor Hugo (sem dúvida um homem muito inferior a si) disse: “Primeiro foi necessário civilizar o homem em relação ao próprio homem. Agora é necessário civilizar o homem em relação à Natureza e aos animais”.

Quem pensariam estes homens que eram? Que veleidade teve Charles Darwin (outro ser tão inferior a si) ao afirmar que “a compaixão para com os animais é das mais nobres virtudes da natureza humana” e que “não há diferenças fundamentais entre o homem e os animais nas suas faculdades mentais… os animais, como os homens, demonstram sentir prazer, dor, felicidade e sofrimento”? E S. Francisco de Assis? E Sigmund Freud? E Dalai Lama? E Thomas Edison?

Gente menor, por certo, Sr. Dr. Miguel Sousa Tavares?

Lendo o que escreve, leio a sua alma e o seu carácter. E ao fazê-lo só posso recordar-me das palavras de Mark Twain: “Ao estudar as características e a índole dos animais encontrei um resultado humilhante para mim”. Mas devo ir ainda mais longe, pelo resultado humilhante das suas palavras, ideias e intenções. Devo ir até Clive Staples Lewis (caso não saiba quem é consulte C. S. Lewis - https://en.wikipedia.org/wiki/C._S._Lewis) e dizer-lhe abertamente que “se podemos cortar bestas simplesmente porque elas não podem impedir-nos e porque estamos a dar as costas ao direito à vida, então é lógico cortar imbecis, criminosos, inimigos ou capitalistas, pelas mesmas razões”.

Diz Vossa Excelência: “Entendamo-nos, como ponto prévio: alguém que maltrata animais é uma besta [incluímos nesta sua opinião os touros?]. Mas, para obviar a isso, existe uma coisa que se chama educação – não uma coisa que se chama lei.” Vamos, então, dissecar a sua preleção.

Tudo é educação. Vamos eliminar as leis. É uma questão de educação para o assassino, o violador, o pedófilo, o ladrão. Não precisam de leis, precisam de educação. Não é óbvio, Excelência? Tão óbvio como o próprio carácter “educativo” das leis e das regras? Por que temos leis para quem mata um homem e não para quem mata um animal? Porque há “gente”, que me desculpe a verdadeira gente, que continua a pensar, trogloditamente, que quando se conclui, obviamente, que um animal é um “ser vivo” e não uma “coisa” estamos a “humanizar” o animal. Como se apenas os humanos tivessem direito ao estatuto de ser vivo… mesmo quando não o merecem.

Como considera Vossa Excelência um ser vivo que sente dor, angústia, medo, fome, frio, sede, alegria…? Não será um “ser vivo sensível”… “como diz o PAN”, segundo as suas palavras? Sabia que não é só o PAN que o diz e o pensa? São largos milhares de pessoas em todo o mundo, são muitos grandes pensadores, filósofos, políticos, estadistas e até cientistas? Sim, Sr. Doutor, Ciência! Cientistas como os que assinaram o Manifesto de Cambridge (para que possa aprender consulte http://fcmconference.org/img/CambridgeDeclarationOnConsciousness.pdf), de seu nome técnico “Declaração de Cambridge sobre a Senciência”.

Não vale, de todo, a pena dissecar mais as barbaridades que consegue consecutivamente defender.

Há uma coisa que me aflige, muito: a incapacidade de o Homem pensar e raciocinar. Mantenho, infelizmente, a minha preferência pela porcaria à estupidez… porque a porcaria limpa-se.

 

IMPORTANTES NOTAS DA AUTORA

1: por falar em estupidez… associar um mosquito ou uma mosca a mamíferos e aves é manifestamente estúpido. E já agora recordemos o que é um Homem, ou Ser Humano se preferirem: é um mamífero! Não é uma criação milagrosa com direito a categoria especial no Universo. É um animal… muitas vezes, como já está provado, menos racional do que o humilde burro e muito menos inteligente do que um cão, um gato, um porco, um golfinho, um cavalo, um touro, e et cetera.

2: E continuando na senda da estupidez, “muitos seres sencientes com vivência associada aos seres humanos” não tem a ver com insectos, Sr. Doutor Miguel Sousa Tavares. Por favor estude, aprenda. Se não sabe o que é senciência, mesmo depois de ler a Declaração de Cambridge sobre a Senciência, diga, que eu terei muito gosto em explicar.

3: Quanto a “vegetarianos neurónios”, pelo menos há quem tenha alguma espécie de neurónios!

4: Qual será a dúvida a revestir a seguinte frase: “tanto homens como animais devem integrar um espaço comum, a ser por todos fruído e partilhado”? Pensará Sua Excelência Miguel Sousa Tavares que vive sozinho neste Planeta, apenas acompanhado pelo seu umbigo? Não. Eu explico: neste Planeta vivem todos os animais, domésticos e selvagens… sendo porventura o mais selvático aquele que dá pela denominação de Homem, um mamífero bídepe e erecto extremamente perigoso e particularmente agressivo, sendo o único animal na Natureza que sofre de vícios e mata por desporto e por prazer.

5: Ainda bem que confessa o “criminoso gozo de matar perdizes, rolas, pombos bravos, tordos, coelhos e outras espécies de caça, assim que a época se apresenta” (…) Bendita época de caça! Meu querido mês de Outubro!”.

Antes fosse ridícula esta bravata, mas é apenas triste. E tão mais triste quanto se atenta que o próprio FBI já inseriu os crimes contra animais na categoria de crimes contra a sociedade, e quando é sabido pelos profilers (aqueles que fazem os retratos dos assassinos em série, esses mesmo) que “incêndios propositados e crueldade com animais são dois dos três sinais de infância que sinalizam o potencial de um assassino em série” (John E. Douglas, analista do FBI e autor de obras como “The Anatomy of Motive” e “Crime Classification Manual”, entre outras).

Convenhamos… que sensibilidade e bom-senso se pode esperar de um caçador e tauromáquico, ainda por cima tão pouco educado nas referências que faz a um deputado, legitimamente eleito por largos milhares de eleitores? (Eleitores são pessoas, sabe isso, não sabe Sr. Sousa Tavares?!).

 

 

AUTOR: Filomena Marta

Publicado em: 
16 Maio, 2016
Categoria: 
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