10 argumentos a favor da tourada

Já escrevi sobre a tourada, mas senti que me tinham faltado algumas coisas, e como a semana passada foi assunto quente, aqui ficam opiniões que são minhas. Deixo-vos com 10 argumentos a favor da tourada.

10 argumentos a favor da tourada

1 - A tourada é tradição e cultura

É uma actividade que remonta ao século XII, altura em que a maioria das pessoas não sabia ler nem escrever, em que a consciência humana e social era quase nula e ainda se cagava em penicos. Por si só este argumento é parvo, já que os coliseus romanos, queimar bruxas na fogueira e a escravatura também eram tradições culturais de tempos antigos. Felizmente vamos evoluindo enquanto espécie, alguns pelo menos, e vamos adaptando as nossas tradições aos valores da sociedade.

2 - Só vê quem quer, são gostos e temos de respeitar

Sim, a liberdade de opinião é sempre de valorizar. Tem que existir toda a liberdade para se ser parvo, é um facto, que é o que este argumento é. Comentaram uma vez aqui no blogue a dizer “Eu também não gosto de boxe, quando está a dar na TV mudo”. Comparar boxe com tourada é o mesmo que comparar violação com sadomasoquismo. Ambos fazem dói-dói, mas num estão lá os dois por livre vontade. Quando se fala de direitos e civismo, o gosto e a liberdade não são para aqui chamados, muitos padres também gostam de criancinhas e não é por aí que se vai legalizar a pedofilia.

3 - Não comes carne?

O argumento mais parvo de todos que, infelizmente, é utilizado por muitos vegans para atacar quem o não é, em vez de apoiarem quem está a tentar acabar com a tourada. Comer carne só seria comparável à tourada se começassem a cobrar bilhete para ir ao matadouro assistir ao break dance que as vacas e os porcos fazem quando estão a ser electrocutados. Com direito a transmissão televisiva e a desfile de homens de calças vermelhas, mulheres oxigenadas com filhos de cabelo à Playmobil pela mão, a dizer “Veja Martim, veja a vaca a contorcer-se, se não fosse tradição e cultura era horrendo, agora assim é uma caturreira”. E eu até sou vegan não praticante, como já aqui escrevi. *

4 - Os touros bravos estariam extintos sem as touradas

E então? 99% das espécies que já existiram estão extintas. Não fomos nós que as matámos todas, é o curso da Natureza. Se for de forma natural é deixá-las ir, não faz muito sentido, a meu ver, manter uma espécie viva para lhe causar sofrimento. Esse argumento seria o que os apoiantes da escravatura utilizariam se a raça negra se estivesse a extinguir. Antes extintos do que escravos, digo eu, que nunca fui escravizado mas pelo que li não devia ser agradável.

5 - O touro não sofre

Este argumento é parvo. Já viram que há um padrão nos argumentos? Não digo que sofre mais do que em muitos matadouros, provavelmente sofre menos **, mas não é isso que está em causa. É o espectáculo deprimente que se monta à volta de um animal que está a ser espicaçado e sangrado. Mesmo que as bandarilhas não lhe doam assim tanto ***, não justifica o ritual medieval que hoje em dia é mais para agradar à direita “chique” do que ao povo. Ver pessoas na plateia a tapar a cara de horror, mas que vão na mesma porque está na moda… era um par de chapadas à padrasto para aprenderem.

6 – Os touros são animais agressivos e nasceram para a lide

Os touros são animais territoriais e selvagens e, como tal, quem lhes invada o território sujeita-se a levar com um chifre nas nalgas. Fora isso, são animais normais colocados entre a bandarilha e a parede, onde se vêem forçados a marrar nos forcados. Nunca vi um touro a andar a vaguear à noite, escondido em esquinas e becos à espera de uma rapariga perdida para violar. Nunca vi gangues de touros com lenços na cabeça a arranjar confusão no Bairro Alto. No entanto, os humanos fazem isso e nós, infelizmente, não os pomos numa arena a serem espetados com bandarilhas no lombo. Agressivo e parvo é o ser humano, uns mais do que outros.

7 – É uma arte bonita de se ver

Também é bonito ver mulheres nuas na rua (algumas) e não é por isso que é legal. Infelizmente. A definição de arte e a beleza são subjectivas, se o Da Vinci para a tinta dos seus quadros tivesse utilizado bebés e um espremedor de laranjas, também continuavam a ser obras de arte, mas os meios não justificavam os fins. Cá para mim, a arte a que os aficionados se referem é ver a tomatada dos toureiros ali toda pronunciada no meio dos collants e lantejoulas, normalmente de tons rosas e amarelos. Sim, é realmente uma arte conseguirem arrumar aquilo para um lado e ainda assim conseguirem andar como deve ser.

8 – Atrai turismo

Acredito que sim ****, mas sabem o que também atrai turismo? Prostituição e drogas. Há até quem vá a certos países do Terceiro Mundo para comer criancinhas. É esse o turismo que queremos ter? Eu cá passo bem sem os estrangeiros que querem ver um animal a sofrer, prefiro mil vezes um grupo de ingleses bêbedos a vomitar.

9 – Dá emprego a muita gente

O desemprego é na sua maioria mau, mas há muita gente que está desempregada porque ou não quer trabalhar ou não tem capacidades para fazer nada. Se a tauromaquia é a única coisa que se sabe fazer na vida, então se calhar o desemprego é justo. Sem subsídio neste vaso, se faz favor. Mais uma vez, a droga e a prostituição também dão emprego a muita gente, a diferença é que no caso da droga e da prostituição a legalização iria diminuir o número de pessoas que estão nessa vida contra a sua própria vontade.

10 – Preocupem-se antes com os cães

As coisas não são mutuamente exclusivas. A questão é que um acontece às escondidas (e agora já é crime), a outra passa na RTP. É normal que chame mais a atenção. Não acho que quem goste de tourada seja automaticamente atrasado mental e má pessoa, como acho de quem abandona um cão. Quem faz isso com um animal com o qual conviveu e devia ter criado laços, para o deixar a sofrer algures na beira de uma estrada ou numa mata, devia morrer. Quem faz isso é impossível ser uma pessoa decente e devia estar numa arena a ser sodomizado por uma manada de touros com elefantíase do pénis. O touro sempre tirava algum prazer assim. Por falar na nova lei que criminaliza os maus tratos a animais, como sabem só se aplica aos de companhia. Será que se eu tiver um touro amestrado lhe posso espetar ferros no lombo para o ensinar a sentar e dar a pata? E os circos a mesma coisa, aliás os circos com animais e as touradas têm um ponto em comum, ambos maltratam e exploram seres vivos contra a sua vontade e ambos têm palhaços, no caso das touradas costumam estar também nas bancadas.

Posto isto, quero apenas terminar dizendo que respeito muito mais quem gosta de tourada e diz que gosta “porque sim”, porque cresceu com isso e não está preocupado com o touro. Que o sofrimento do animal não o preocupa. Respeito muito mais quem tem essa honestidade do que quem tenta dar um destes argumentos parvos, que fazem tanto sentido como a tourada ainda existir. Nenhum.

Texto original em “Por falar noutra coisa”:

http://porfalarnoutracoisa.blogspot.pt/2014/07/10-argumentos-favor-da-tourada.html

 

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*Nota 1 do Anima Sentiens: Não se concordar com tudo o que alguém diz não retira importância àquilo que de bem é dito. Neste caso específico, o Anima Sentiens não se revê nas opiniões do autor em causa, embora o congratule pela sua visão lúcida sobre a questão das touradas. A autora deste site não é perfeita, com toda a certeza nunca o será, mas lá vai tentando e para já (há vários anos) optou por abandonar o consumo da carne, por razões afectivas, emotivas e morais. Se temos o cérebro acima do estômago, aproveitemos a vantagem anatómica…
** Nota 2: Por acaso não, não sofre menos. O sofrimento dos touros começa ainda antes da entrada na arena e prolonga-se na agonia de animais transportados profundamente feridos após a “lide”.
*** Nota 3: Isso ainda vão ter de provar, bem provado!
**** Nota 4: Por acaso não, não atrai turismo. Apesar das multidões de Pamplona, a tourada é cada vez mais considerada internacionalmente uma barbárie própria de povos incultos e incivilizados. Se não, teríamos as praças de touros a transbordar de estrangeiros, coisa que não acontece.

AUTOR: Guilherme Duarte

Publicado em: 
1 Agosto, 2014
Categoria: 
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